sábado, janeiro 25, 2003

João Fernandes

"Não queremos condenar a arte ao provincianismo"

Serralves começa a ser um museu idêntico aos que visitava na infância. Um espaço acolhedor e de confronto. Mas João Fernandes, que substitui a partir de agora Vicente Todolí, na direcção do Museu de Serralves, é mais ambicioso. Quer apurar o sentido crítico dos cidadãos e continuar a criar condições para que os artistas portugueses tenham oportunidades de defesa e apresentação de obra idêntica à dos artistas internacionais. Do Porto, cidade onde organizou as primeiras exposições, o novo director só espera que não regrida.

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 25 de Janeiro de 2003)

A programação da nova equipa só entrará em vigor em 2005. Haverá mudanças?
O Vicente Todolí e eu programamos o museu até 2004. Começo agora a pensar na programação de 2005. Não entendo que seja necessário mudar a linha de programação, mas edificá-la e aprofundá-la.O desafio maior diz respeito à colecção. É o momento de fazê-la crescer e assegurar que continua as expectativas que despertou aquando da sua apresentação, na abertura do museu.

O Museu de Serralves, ao integrar a Rede Internacional de Museus, é, por vezes, acusado de privilegiar a arte estrangeira em detrimento da nacional...
Os portugueses não tiveram oportunidade durante uma boa parte do século XX de conhecer os seus artistas, muito menos os que existiam no Mundo. Uma das melhores formas de defender e apoiar a arte que se faz aqui é situá-la numa colecção e numa programação que sejam internacionais. Não queremos continuar a condenar os artistas portugueses à claustrofobia, ao provincianismo. Um terço das nossas exposições é obrigatoriamente constituído por artistas portugueses. Esta proporção permite-nos situar os portugueses no contexto de uma programação internacional e, com isso, abrir portas para que eles possam ser conhecidos no contexto dos outros artistas que vêm cá fazer exposições. Se o contrário acontecesse, estaríamos a confirmar essa regra da excepção e do isolamento que sofreu a arte portuguesa. Não se trata de uma obsessão por uma internacionalização demagógica ou por qualquer detrimento da arte portuguesa.

E em relação à colecção?
Temos uma relação contrária à proporção que temos em relação à política de exposições. A maior parte dos artistas que adquirimos são portugueses. Procuramos ter um núcleo dos anos 60/70 que represente em paridade artistas portugueses e internacionais.Depois dos anos 70 só compramos, de arte internacional, os artistas que apresentamos no museu porque surge como documentação da vida do próprio museu.

Como é que Serralves consegue manter-se incólume aos vários governos e ministros da cultura?
É um projecto curioso e singular da sociedade portuguesa. Em primeiro lugar pela ligação que existe entre a iniciativa pública e privada. É graças à confluência singular desta junção que Serralves consegue desenvolver os seus projectos. É isso que tem feito com que não fique dependente do contexto político. Aliás, uma estrutura cultural não deverá estar dependente de uma flutuação política. Temos conseguido relações extremamente positivas com todos os ministros da cultura que temos conhecido.

O Conselho de Administração de Serralves deliberou agora a criação de um Conselho Consultivo para o Museu. Porquê?
No momento em que o museu passa a ser dirigido por um português, entendeu-se que deveria ter um conselho consultivo constituído por personalidade relevantes do mundo da arte internacional, como o Kynaston McShine, do MOMA, de Nova Iorque.

Quem vai ser o seu director adjunto?
Estamos num processo de selecção e negociação do director, devendo ser anunciado em breve. É uma pessoa com experiência museológica, com uma experiência de trabalho internacional, que permitirá uma integração muito fácil nas linhas de continuidade deste museu.

Como sente o legado de Vicente Todolí?
Não o sinto bem como um legado. É uma experiência que construímos em conjunto, o que faz com que me seja extremamente facilitada a continuidade do projecto.
Relação deficiente com ensino de arte

Qual é a relação de Serralves com o ensino de arte?
É deficiente. Não nos compete apresentar os artistas saídos das escolas, mas as próprias escolas deveriam fazê-lo em condições dignas. Recebo mais convites para visitar escolas de arte lá fora do que cá. Estando num museu, sinto falta de conhecimento de artistas, que apesar de tudo, é compensada pela luta dos próprios artistas. No Porto, têm surgido nos últimos anos artistas que criam os seus próprios espaços. Sem subsídios, mas com coragem, criam projectos condenados a ser efémeros. Faz falta um apoio regular a esses espaços de emergência. Ficaria satisfeito se tivesse espaços na cidade que permitissem o conhecimento do trabalho regular de artistas jovens, criando-me possibilidades para posterior apresentação no museu. Seria importante criar a oportunidade para que artistas jovens de outros países pudessem vir em residência para a cidade, criar intercâmbios e condições de apresentação para os que trabalham cá. Que existissem condições para que Serralves se pudesse associar a outras instituições e criar eventos como o Squatters, em 2001.

De que forma se evidencia, em Serralves, a preocupação com a criação de oportunidades?
Em Serralves estamos a conviver com a primeira geração de portugueses que tem direito a conhecer a arte do seu tempo. Independentemente daquilo que os números representam, confesso que o sucesso de um museu não é comensurável pelas estatísticas. Mas fico satisfeito se acreditar que estou a criar a possibilidade para que cada pessoa possa confrontar-se com experiências artísticas que aqui são apresentadas e possa construir a sua própria relação com a obra de arte, não livre de uma domesticação social, mas sim criando uma relação individual e natural com essa mesma obra de arte. Gosto, compreensão, conhecimento, entusiasmo ou até rejeição. Espero que Serralves possa suscitar isso nas pessoas. A cultura não é menos essencial na vida de uma pessoa do que todas as outras actividades do seu dia a dia. Não é a sobremesa que podemos decidir ter ou não ter quando vamos ao restaurante.

De onde lhe vem o encanto pela arte?
A criação artística interessa-me desde miúdo. Apareceu, primeiro, transformada pelos escritores que sobre ela escreviam, Proust, Joyce, Thomas Mann. E depois, pelas viagens. Há viagens muito curiosas... Fui à Flandres e à Holanda em busca dos flamegos primitivos e dos escritores holandeses do século XVIII e descobri os museus de arte contemporânea. Foi a descoberta de toda uma série de artistas. Foi nessas viagens, que fazia em miúdo, que percebi como uma sociedade organizada podia organizar os museus.Para um viajante adolescente significava ser bem acolhido, mesmo com pouco dinheiro. Por isso, acho que os museus devem ser espaços acolhedores, que criem perspectivas de confronto com a arte.Não devem ser demagógicos. A arte é um confronto e para isso as pessoas têm que se libertar de alguns preconceitos. Fico contente por Serralves ter criado um cenário que considero semelhante ao dos museus da minha infância.

Considerando a sua formação, como se posiciona entre o livro e o objecto?
Não faço uma opção. Ambos podem confluir naquilo que é a criação artística do nosso tempo. Ambos são uma experiência artística e uma forma de questionamento para que o nosso relacionamento com o Mundo seja aberto, generoso, disponível. Para não ficarmos perdidos em certezas falsas.

Que exposição gostaria de trazer e nunca conseguirá?
(risos) Não me passa pela cabeça não trazer cá uma exposição que quero mesmo trazer. De qualquer forma, Serralves não importa, não compra exposições, coproduz. Nunca trazemos o que está a acontecer em Londres, Paris ou Nova Iorque. O que se faz neste museu é criativo por si só. É a sua singularidade. Não adianta fazer aquilo que os outros já estão a fazer. Às vezes, nem aceitamos coproduções internacionais, justamente para chamar a atenção do Mundo para o que se passa aqui.

E a exposição de Bacon?
Não é similar às outras que já foram feitas. Só a decidimos fazer a partir do momento em que encontramos um ponto de vista próprio sobre a obra dele.

Em tempo de crise, julga-se que só compensa investir em arte. É um coleccionador?
Acha? Não sei... Os valores atribuídos em mercado não são definidores da própria obra de arte. Sou responsável por uma colecção, mas não é o critério do mercado que me orienta. Mas, fico satisfeito quando obras compradas para Serralves valorizaram cinco vezes mais passados uns anos. Significa que foram feitas apostas interessantes.

E pessoalmente?
Não tenho arte em minha casa. É um paradoxo que eu assumo. Acho importante que haja coleccionadores, mas não quero ter uma relação com a obra de arte que passe pela propriedade. A minha relação pessoal com a arte faz-se da minha relação com os artistas, com os projectos nos quais estou envolvido.

Não deveria haver uma relação mais estreita entre o museu e as galerias da cidade?
É curioso o aumento do número de galerias de arte da cidade.Isso coincide com o aparecimento do museu. Poderia ser interessante um mapa de arte contemporânea do Porto, que incluísse o museu, as galerias, o Centro de Fotografia e outras instituições expositivas, para poder haver um percurso de arte visual para quem visitar a cidade.

Que análise lhe merece a política cultural da cidade?
O Porto é hoje uma cidade com projectos nacionais e uma diversidade de experiências culturais extremamente interessantes. 2001 lançou projectos como a Casa da Música e fortaleceu as estruturas nacionais emergentes, como o Rivoli, o Teatro S. João, Serralves. Provou que havia público para a cidade. Foi uma rampa de lançamento para um contexto cultural que não pode regredir, mesmo que haja problemas económicos. À recessão económica não pode ser inerente a regressão cultural. Trata-se de adaptar as possibilidades às condições que existem, nunca abdicando da vida cultural. Não sou tão pessimista como muitos. É impossível regressar aos tempos em que não havia nenhuma iniciativa institucional. A vida política, cedo ou tarde, reconhecerá a evidência disto: a cultura é um facto diário da vida dos cidadãos desta cidade. E não creio que estejam na disposição de abdicar dela.

MARCAR O PASSO DA EXPOSIÇÃO
Do programa de quatro visitas guiadas já alinhavado para a mostra sobre Francis Bacon, em Serralves, uma será feita pelos passos de João Fernandes. É no dia dia 7 de Fevereiro, às 18.30 horas.A primeira, guiada por Fernando Pernes, é no dia 27. Depois, a 7 de Março, João Bénard da Costa dá voz aos olhos dos visitantes e, no dia 30 do mesmo mês, Fernando Pernes encerra as visitas guiadas.

DA LITERATURA PARA AS ARTES VISUAIS
O início da vida, marcado por mais literatura do que qualquer outra coisa, poderia não fazer prever que João Fernandes, transmontano, acabasse por dedicar-se, em regime de exclusividade e paixão absolutas, às artes visuais. Ele, no entanto, que cedo se teria deixado influenciar pelas opiniões dos escritores sobre arte, não ficou admirado. Cursou letras mas, na primeira oportunidade, trocou-as.

FRANCIS BACON NA PASSAGEM DE TESTEMUNHO
A maior exposição realizada em Portugal sobre o pintor Francis Bacon - talvez o mais conhecido na segunda metade do século XX - marca a transição de reinado na Direcção do Museu de Serralves: sai Vicente Todolí, agora a caminho da Tate Gallery, de Londres; e entra João Fernandes. "Cage/Uncaged", mergulho no universo tortuoso do britânico, ficará patente até ao dia 20 de Abril.

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