quinta-feira, setembro 13, 2007

Pedro Santana Lopes


"Cada vez se demora menos tempo a ir às boxes"

Atende o telefone e aceita impulsivamente responder à entrevista. Só depois é invadido por algumas dúvidas: sobre o formato, sobre eventuais rasteiras. Pedro Santana Lopes, 51 anos, ex-Primeiro-Ministro de Portugal acaba por superá-las. Troca um dia de praia pelo computador. Às 19.30 em ponto, como prometeu, enviou o mail.

[Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada a 19 de Agosto de 2007 na série Farpas do Jornal de Notícias]

Ser Primeiro-Ministro foi a fase menos divertida da sua vida?
Estar como Primeiro-Ministro é um permanente exercício de responsabilidade. Não é suposto fazer uma avaliação com base no critério que resulta da pergunta. Uma campanha que com pouco tempo mais, ficará clara quanto aos seus autores, quis convencer os Portugueses de que era outra a minha maneira de estar. Estão alguns a começar a responder em Tribunal.

Ao seu caso aplica-se o ditado: "Atrás de mim virá quem bom de mim fará"?
A comparação não tem sentido por várias razões. Eu assumi essas funções numa situação de emergência e não tive o tempo mínimo para ter resultados próprios, a não ser assegurar o respeito pelos nossos compromissos e garantir que 2004 fosse, como foi, um dos melhores anos desde o princípio da década.

Também acha que alguns dos episódios protagonizados por José Sócrates teriam sido inflacionados em termos mediáticos se tivessem sido protagonizados por si?
A sua pergunta já contém a resposta. Mas não compare só comigo. Conhece alguma Democracia onde não seja falado o local e o tempo de férias do Primeiro-Ministro ou Chefe do Executivo? Veja Espanha, Itália, Inglaterra, França, Estados Unidos. Quem acompanhe, como eu a Imprensa desses Países sabe o que se tem passado durante estas semanas com esses líderes políticos. E o que é mais inacreditável é que exercemos este semestre a presidência da União Europeia. Estejam os serviços em Bruxelas mais ou menos de férias, nós não devíamos desperdiçar nem um dia.

Qual é o melhor antidepressivo para o PSD: Mendes ou Menezes?
O PPD/PSD tem de viver sem comprimidos. Não pode viver deprimido. É contra a sua natureza. Gosta de se sentir bem consigo próprio, de sorrir mesmo na luta. A campanha para as legislativas em 2005, mesmo naquelas condições tão difíceis, é inesquecível para os militantes e simpatizantes. São eles que o dizem quando me encontram, ou nos muitos mails e cartas que me enviam constantemente.

As eleições intercalares em Lisboa deram-lhe mais vontade de rir ou de chorar?
Sabe quando algo mexe tanto connosco que ficamos sem vontade de dizer seja o que for? Até agora ainda não me passou. Só digo que é algo sem precedentes: um partido ter o Governo do País e da sua capital e vários dos seus militantes fazerem tudo para derrubar ambos. Conhece outro caso?

Gostava de ter uma mulher com a personalidade de Ségolène Royal no seu partido?
Gostava que muito mais mulheres se interessassem pela política activa sendo iguais a si próprias.Se me pergunta o que penso de Segoléne Royal, apreciei mais o que fez até à fase pós –presidenciais em que, com ela e com o marido, houve demasiada confusão entre o que é a vida pessoal e o que é a intervenção política.

Que comentário lhe merece a dispensa de Dalila Rodrigues do Museu Nacional de Arte Antiga?
Tenho pena que não tenha podido continuar o seu bom trabalho.

Diz ela [a Dalila] que "se é comum dizer-se que a cultura é de esquerda, a culpa é da direita". Concorda?
A Cultura nunca foi, não é, nem será só de “Esquerda”.Pensar isso é estar a falar de outro conceito e de outra realidade que não a Cultura.l Essa hipótese mais não é do que um absurdo.

O governador de Nova Jérsia, Jim McGreevy, planeou minuciosamente o sound byte "Sou um americano homossexual". O seu "Vou andar por aí" também foi calculado?
Não. Escrevi umas notas sobre o que queria dizer pouco antes de começar a minha intervenção nesse Congresso de Pombal. Mas a importância que sempre foi dada a essas palavras foi a melhor confirmação de que Churchill tinha razão quando disse que há várias vidas na política. Mas quando voltamos não nos podemos negar a nós próprios. Temos de saber muito mais e de demonstrar que aprendemos e tirámos as lições das vivências anteriores.

'Anda por aí' ou ainda está nas boxes?
Se vir a política como uma prova de Fórmula 1,é impressionante como cada vez se demora menos tempo a ir às boxes. Mas não se deve regressar á pista antes de o reabastecimento terminar. E deixar passar quem quer e pode voltar primeiro.

"Menino guerreiro" é a melhor definição que encontra para si?
Não. Nem pensar. Nem “Animal feroz”.

O piano é o sítio onde pendura a solidão?
Onde encontro serenidade e onde fortaleço a motivação. Sempre prometi a mim próprio que aos quarenta anos começaria a estudar piano. Estudei anos iniciação musical na Fundação Gulbenkian desde os cinco anos. E depois mais outros quatro anos estudei violoncelo. As aulas de solfejo com a Professora Vitória Reis facilitaram a leitura das músicas que tenho aprendido a tocar.

O whisky é, como dizem, o melhor amigo do homem. Ou são as mulheres?
Bebidas o melhor amigo? Nunca. Sempre bebi muito pouco. Quanto ás mulheres, em amizade, há de tudo. Como com os homens.

A esta distância, sente que foi demasiado benevolente com Durão Barroso, no seu livro "Percepções e Realidade"?
O melhor critério para avaliar a boa fé daqueles com quem partilhei esse período é o seu comportamento posterior. Não tenho razão para mudar o meu pensamento sobre Durão Barroso.

Tê-lo escrito quer dizer que tem boa memória ou que tem um Diário?
Dizem que tenho memória de elefante. E tomo muitas notas sobre aquilo de que não me quero esquecer. Mas faço-o, muitas vezes, à frente das próprias pessoas.

Sentiu-se pacificado depois da sua publicação?
Senti. Mesmo. E por ter constatado como falharam rotundamente todos os que se preparavam para o tentar descredibilizar, tentando equipará-lo a outro(s) de estilo e propósitos bem diferentes. Mas o livro estava muito assente numa fundamentação rigorosa. Como não o conseguiram desmentir, calaram-se. Teve quatro edições ,até agora, e hão-de reparar como apesar de ter vendido, em dois meses, quase vinte mil livros, deixou de aparecer…

Praia é na Figueira da Foz ou no Algarve?
A Figueira da Foz tem várias e bonitas praias, não só a da Claridade ou a de Buarcos. Quiaios, Cabedelo, Lavos, Leirosa,por exemplo.Como o Algarve tem muitas e distintas. Quer as da Figueira, quer as do Algarve, são imperdíveis.

Qual é o seu prime-time de um dia em férias?
Férias são férias. Não há nem prime nem second-time. Mas a hora do jantar tem um sabor especial.

Defenderia para Portugal a hora da sesta espanhola?
Defendo que a produtividade passe a ser cada vez mais próxima da à de Espanha. Nunca mais deixamos a casa dos 60% da média da União Europeia.

Os desfiles de moda são um happening que visita por cordialidade ou é um fashion victim?
Nem uma coisa nem outra. Gosto, mas não obedeço às modas. Embora faça por as conhecer. E, se me distraio, há sempre quem me informe. E respeito quem se esforça por se impor num sector que, num País como Portugal, tende a dar mais valor ao que chega de fora das nossas fronteiras.

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