quarta-feira, junho 18, 2003

Pedro Burmester

"É estranho o Governo ainda não ter revelado modelo de gestão"

Deixou, há quase dois anos, o piano em "banho-maria", para se dedicar àquela que já considera ser "a grande aposta" da sua vida, a Casa da Música. Pedro Burmester, responsável pela programação da instituição, confessou acreditar piamente no projecto. Mas estranha que o Ministério da Cultura, a um ano da abertura da obra de Rem Koolhaas, não liberte o modelo de gestão. E que a Câmara Municipal do Porto queira reduzir a cidade a uma aldeia.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 18 de Junho de 2003)

Costuma usar-se o atraso da obra da Casa da Música (CM) para provar o fracasso do Porto 2001...
Provar-se-á o contrário. A CM é o símbolo máximo da importância do 2001. Quando passar a lógica política do quem fez o quê, o balanço será francamente positivo.
Que peso poderá ter a CM no salto qualitativo do país?
O país precisa de investir na formação, na educação e na cultura. A CM não vai salvar o Mundo, mas pode, em conjunto com outras políticas, contribuir para isso. Não pode é tornar-se uma ilha isolada como é, de certa forma, Serralves ou o Teatro S. João. Embora a Câmara Municipal não concorde com esta visão, acho que o Porto tem condições especiais para se transformar num importante pólo cultural do país.
Qual é a responsabilidade da autarquia na CM?
Tem uma percentagem muito pequena e, segundo diz, poucos meios financeiros para investir aqui. Como tal, não terá uma palavra muito importante a dizer. Está mais preocupada com questões, que também têm que ser resolvidas, mas que reduzem o Porto a uma aldeia.
Já são conhecidas as hipóteses de modelo de gestão?
Estranhamente, não. Provavelmente, o Ministério da Cultura tem muitos assuntos para resolver, e a cultura não deve ser uma prioridade.Com a Casa da Música tem havido muito pouco diálogo.
Poderemos estar ainda perante uma folha em branco?
Seria uma grande inconsciência. Quero crer que o Ministério da Cultura estará a preparar tudo e que, na altura devida, irá dizer o que fazer. Mas o limite é urgente. Terá de ser, no máximo, até Outubro, porque caminhamos rapidamente para a conclusão da obra.
Já existe programa definido para essa altura?
A nossa equipa está reduzida ao mínimo, mas obviamente já está a pensar no que vai fazer. Não divulga porque não pode. E porque ainda não sabemos o que vai acontecer para o ano, em termos de estrutura jurídica, quantas pessoas vão trabalhar, quem será a equipa, que meios vai haver e que enquadramento terá a Casa da Música.
Não tem dado concertos. Teria sido mais fácil conciliar o piano com o futebol profissional a que aspirava do que com a CM?
Não creio. Acredito tanto neste projecto, e revejo-me tanto nele que, enquanto for assim, continuarei com o piano em banho-maria. Se o projecto for descaracterizado, aí sim, saio.
A CM é a aposta da sua vida?
Estou a ver que se está a tornar nisso.
Rui Amaral, disse recentemente que a Casa da Música "não é para todos os tipos de música". Afinal, é ou não?
Rui Amaral (presidente do conselho administrativo da CM) não é do meio musical, é natural que faça afirmações confusas para as pessoas. Uma vez diz que haverá só ranchos folclóricos e bandas filarmónicas. Outra vez, que haverá ópera, depois que já não há. Como res- ponsável pela programação cultural, garanto que a CM é para todo o tipo de música. Mas com critérios de programação e noção clara das áreas em que quer apostar. Defendo o jazz, o fado, a música potuguesa,a electrónica e a clássica. Se o género musical tiver qualidade, independentemente do critério estético de gosto - de uma Ágata, a uma Mariza no fado, a um António Rosado na música clássica -, a CM deve ceder o espaço. Mas não será um "acolhe tudo".
A questão da ópera regressou também à ordem do dia...
Mas não devia. Definitivamente, a ópera é uma aposta da CM, até porque temos o Estúdio de Ópera, que aposta nos jovens cantores e na sua formação. Como a CM é um espaço muito cenográfico, estamos a pensar fazer óperas especificamente desenhadas para aqui.A CM está a negociar a presença do Ensemble em festivais internacionais...O coração da CM é o Serviço Educativo, a quem compete educar pessoas de forma a poderem valorizar uma programação de qualidade e formar jovens, abrindo-lhes o mercado internacional.
Quais são as suas apostas?
Fado, algumas áreas do jazz, música portuguesa, electrónica e clássica.
A criação de públicos estende-se a pessoas mais velhas ou concentra-se nas escolas?
O serviço educativo tem que criar projectos específicos que envolvam todos os públicos arredados da cultura. E já o fez com óperas como o Wozzeck, escrita e feita por bairros carenciados. Claro que não basta abrir as portas às escolas. É preciso obedecer a um trabalho continuado.
Há mercado para os músicos que a CM deverá formar?
Em Portugal há o medo de julgar as coisas pela qualidade e de as por concorrencialmente com outros países. Vamos fazer isso, internacionalizar os nossos músicos.
A programação será tão polémica como o edifício, os prazos incumpridos ou o arquitecto?
Se tiver os meios, a CM será inteligente para satisfazer o mais alargado leque de públicos. A polémica prende-se com o gosto e não com a qualidade.
Qual objectivo do futuro programa?
Ser realista, de qualidade, arrojado no sentido de surpreender.

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