domingo, fevereiro 12, 2006

Pedro Burmester

(Foto: Pedro Correia)
"A luta foi útil
mas já não é necessária"
Sabia-se que regressaria a casa - só não se sabia quando. Pedro Burmester volta à Casa da Música na próxima segunda-feira, dois anos depois de saído. Na primeira entrevista como director artístico e de educação, o pianista revê o percurso trilhado e admite ter exagerado nas críticas pessoais ao presidente da Câmara do Porto. "Se pudesse voltar atrás teria mantido uma atitude mais política, menos pessoal". Diz que talvez tenha, dado o seu envolvimento, prejudicado a resolução do processo. "Criei uma ligação afectiva, quase como se fosse um filho". E assegura que no futuro irá ser diferente. "Não quer dizer que não trabalhe com paixão". Quer sobretudo contribuir para a "pacificação do projecto". Sabe que a Casa já não é só dele, apesar de ter sido dele a ideia. "A Casa da Música é de todos".
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 12 de Fevereiro de 2006)

Afirmou que só voltaria à Casa da Música se o poder autárquico mudasse. Por que recuou?
Parecia-me difícil regressar numa altura em que não havia estrutura jurídica definida para a Casa da Música (CM), e face às críticas que teci à Câmara Municipal do Porto e ao Ministério da Cultura. Neste momento existe aquilo por que todos, e eu principalmente, me bati sempre: uma Fundação que permite à CM não estar tão dependente de dois accionistas que, sendo entidades públicas, são mais sensíveis às mudanças. Atendendo ao meu histórico em relação ao projecto, não podia recusar o convite. É certo também, e não me custa reconhecer, que me empenhei pessoalmente muito no projecto desde o início - um empenhamento em detrimento da minha carreira como pianista. Esse envolvimento levou-me a cometer excessos. Por exemplo, em relação às críticas pessoais ao presidente da Câmara. Críticas pessoais e políticas devem ser feitas em sítios diferentes. Se voltasse atrás teria mantido uma atitude mais política, menos pessoal. Isso não acrescentou nada ao meu objectivo, que era defender o projecto.

Acha que o prejudicou?
Posso ter prejudicado uma resolução mais rápida das coisas. Mas foi uma luta necessária.

O que é que esteve em causa na negociação do seu convite?
A autonomia do projecto, definição de uma relação equilibrada entre poderes público-privados, definição de um conselho de administração credível, autonomia da direcção artística e respectivo enquadramento do serviço educativo, preservação da matriz essencial do projecto, que passa por uma aposta na diversidade e qualidade, e poder escolher a equipa. Mais importante: a confiança criada entre todas as pessoas.

Regressa também depois de ter recebido uma indemnização para sair...
Não faço juízos morais; deixo isso para os outros. Quando a administração [presidida por Rui Amaral] foi demitida, fui logo convidado para consultor de programação do presidente Alves Monteiro. Desempenhei o cargo entre Junho de 2003 e Janeiro de 2004 sem ter auferido vencimento. Foi a condição que coloquei, embora ele me tenha sido oferecido. Nesse período, saiu um parecer do Ministério da Cultura referindo que os administradores tinham direito a uma indemnização equivalente do vencimento desde o dia em que foram exonerados até à constituição de nova entidade jurídica. Não a pedi, nem o iria fazer. Acordei que a minha indemnização ocorreria só entre Junho de 2003 e Dezembro de 2004. Se quem ma pagou disser que ela não é correcta, que é ilegal, que é eticamente reprovável e quiser que devolva o dinheiro, devolvo. Lembro que havia uma Sociedade Porto 2001; agora há uma Fundação. Eu era administrador; agora sou director artístico. Fui despedido injustamente e a indemnização foi justa.

Nesta urgência de pacificar o projecto foi-lhe pedido que, desta vez, seja menos polémico?
Não. Mas essa pacificação é necessária para podermos concentrar-nos no que é essencial. A CM foi um projecto muito politizado desde o início. Serviu de arma de arremesso de partidos, ministros, autarcas. E foi apanhada no meio da turbulência política dos últimos anos. Todos têm consciência que essa fase tem que terminar. Contribuirei pessoalmente para isso. A única polémica que espero enfrentar terá a ver com críticas aos conteúdos e não à política. Aí, enquanto director artístico e de educação, não irei pronunciar-me.

Essa reconciliação significa que voltará a tocar piano na cidade?
Isso é uma questão pessoal minha. Foi uma atitude que tomei face à ausência de política cultural no Porto. Se houver alteração nesse sentido, poderei rever a posição. Já há uma alteração interessante: os programas culturais do actual autarca são diferentes em 2001 e agora. No primeiro, houve ausência de estratégia; este, podendo concordar ou não, indicia que a cultura vai ser levada a sério.

Passaram dois anos desde que saiu da CM e, no entanto, nunca deixou de se falar no seu regresso. Como é que lida com esse mito do eterno retorno?
Bem e mal. Sinto obrigação moral em aceitar o cargo. Tem a ver com pessoas que me apoiaram e defenderam o projecto. Agora - e isto é um processo meu, interno -, quero que o assumir deste cargo provoque em mim um corte com o cordão umbilical que, de alguma maneira, criei com a CM: por estar na origem do projecto, pelo facto de o ter proposto, por ter idealizado as traves mestras, por me ter envolvido nas coisas do arquitecto. Sem intenção de proveito pessoal, liguei-me à CM de forma quase afectiva, como se fosse um filho. Isso foi útil, mas já não é necessário. Regresso para assumir uma função concreta e terei uma postura diferente. Não quer dizer que não me entregue, que não o faça com vontade e paixão, porque essa é a minha maneira de ser. Mas a CM é de todos; não é minha.

Pedro Burmester vai sugerir a continuidade de Anthony Withworth-Jones, ex-director artístico da Casa da Música. "É uma regra a adoptar no futuro para evitar rupturas". Quanto às restantes pessoas, é uma incógnita: "Vai ser feito um organograma para saber quais os cargos necessários". O mesmo acontecerá às estruturas residentes. O Estúdio de Ópera deverá ser reformulado. ´

Como encara o facto de todas as pessoas que já passaram pela CM se assumirem como "guardiãs" do projecto?

Bem. É sinal que o projecto é apelativo, que não provoca indiferença. Houve muitas reacções inesperadas. Não esperava ler a entrevista que li do engenheiro Couto dos Santos. É de alguém que se ligou ao projecto.

Nessa entrevista, ao Expresso, Couto do Santos afirma que a sua nomeação representa uma regressão relativamente a Withworth-Jones. Como vê o trabalho do seu antecessor ?
Ele veio para uma situação politizada e não definida. Isso condicionou o trabalho dele. No entanto, percebeu o essencial: isto é um projecto sério. O que programou, quase sem excepção, tem qualidade, sobretudo na área clássica. Procurou a diversidade e respeitou a matriz essencial do projecto. O trabalho, dadas as circunstâncias difíceis, não foi mau.

Vai mantê-lo como consultor?
Vou propor a sua continuidade. Deve ser um princípio a adoptar no futuro. Sempre que houver mudança de direcção artística, a anterior deve ficar para permitir uma política de continuidade e evitar rupturas. É saudável que a CM saiba agradecer a quem a serviu e deixe de ter inimigos.

Couto dos Santos acusou-o de controlar a CM, mesmo estando de fora...
Tive três encontros com ele. Falamos sempre cordialmente e ele compreendeu as minhas posições públicas. Fiquei espantado com a violência das críticas que fez: desde o presidente da República ao presidente da Câmara, passando pelos fundadores privados, ministros e por mim.

E acusou-o de ser um delegado político do Governo...
Não comento.

O facto de o serviço educativo voltar a estar agregado à direcção artística representa um retorno ao espírito inicial da CM, nomeadamente no desenvolvimento de projectos com a comunidade?
Esses projectos podem e devem ser recuperados. A CM tem um investimento considerável, e parte do orçamento provém de dinheiro públicos. Há obrigação acrescida de devolver à comunidade, através da programação e do serviço educativo, o que a comunidade investiu. Sempre defendi que a reunificação do serviço educativo com a área artística era necessária. Fragmentá-lo conduziu-o a criar linhas paralelas na CM que não se cruzavam, quando um dos principais objectivos do projecto é que faça sentido num todo. Terá que haver projectos para o público geral, para as escolas de ensino geral e vocacionais de música, para os músicos e as comunidades. O objectivo não é programar só para ter audiência; interessa-me que haja conteúdo.

A sala de baby-sitting, como muitos outros espaços, nunca foi inaugurada. Trabalhará no sentido de os optimizar?
Conheço bem o edifício enquanto projecto, conheço-o razoavelmente bem quase terminado; conheço-o mal a funcionar. Vou avaliar o seu funcionamento e as correcções que são necessárias - e há bastantes: detalhes, sinalética, utilização dos espaços, organização. Há partes que não estão a funcionar: restaurante, espaço exterior virado para a Boavista, terraço do pequeno auditório. O serviço de baby-sitting é igualmente importante porque permite que as pessoas tenham onde deixar os filhos quando vão à CM.

Maria João Araújo, responsável pela ex-direcção de Educação e Investigação irá permanecer?
Vai ser feito um organograma detalhado sobre cada departamento para percebermos quais os cargos necessários e quais as estratégias das diferentes áreas: programação, produção, educação, estruturas residentes. Só depois saberei quantas e quais pessoas irão permanecer na CM.

Tem intenção de voltar a convidar Fausto Neves?
Já o fiz. Mas ele prefere optar pela sua carreira de professor e pianista. E eu compreendo. Terei que encontrar alternativas.

Jorge Vaz de Carvalho, ex-director da Orquestra Nacional do Porto, disse que reagirá ferozmente se a ONP não for toda integrada na CM. Há espaço para todos?
Compreendo que faça a defesa pública das pessoas com quem trabalhou, mas isso não será uma condicionante. E isto é válido também para o maestro Marc Tardue, apesar do contrato dele só terminar em 2007.

É verdade que a ONP não cabe na sala de ensaios da CM?
A ONP é uma estrutura fundamental na CM. É meu objectivo, e da Fundação, que possa ter mais visibilidade, qualidade e proximidade com o público. Preferencialmente, deverá ensaiar na sala onde se apresenta. Farei tudo para que seja assim.

A esta altura, já é possível saber se o Estúdio de Ópera faz sentido ou deve ser extinto?
Nasceu para preencher uma lacuna nacional: não existe um estúdio de ópera no sentido da formação de jovens cantores para produções de ópera. Em todos os países da Europa existe este tipo de estrutura agregada a uma casa de ópera. O estúdio devia ter nascido há muito tempo no Teatro S. Carlos. Não existindo, achamos que o devíamos fazer. O S. Carlos deve criar esse estúdio e o da CM deve ser reformulado no sentido de ser menos uma escola de formação e mais um espaço para concretização de projectos específicos, que envolvam voz e cena. Não tem que ser só ópera.

Deve ser estabelecida uma parceria com o S. Carlos?
A CM deve estabelecer parecerias com diversas instituições, preferencialmente ligadas à música, mas não só. No caso especifico da ópera, faz sentido a parceria com o S. Carlos, mas também com o S. João, que foi pioneiro, no Porto, a experimentar músicas cénicas inovadoras. Essa parceria já foi feita no passado e quero mantê-la.

Há condições para seduzir novos fundadores?
Só há. Até aqui era complicado, como se viu. Se calhar não se chegou tão depressa a uma Fundação público-privada porque os privados querem calma política no projecto. Passando a haver essa tranquilidade, tenho a certeza que haverá cada vez mais fundadores a juntar aos 18 que já existem. A CM terá capacidade de os captar através da excelência do serviço que prestar e da importância e visibilidade que vier a ter.

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