sexta-feira, setembro 16, 2005

João Reis

"Estou cansado da palavra sobrevivência"

É a última vez, pelo menos, a médio prazo, que João Reis, "actor fétiche" de Ricardo Pais, subirá ao palco do Teatro Nacional S. João (TNSJ), no Porto. "Preciso cortar o cordão umbilical", confessa o artista, que saiu de Lisboa há 11 anos para desafiar o que se dizia sobre o encenador de cujas peças foi, quase sempre, o protagonista. Não sabe o que vai fazer a seguir, mas sabe que está cansado de Portugal. "Da rasquice, da impunidade". Se pudesse, não saia do Porto; saía do país. "Ubu's", que reabre hoje a temporada do TNSJ, é sobre isso: "Portugal das feiras, dos rabos e dos traques".

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 16 de Setembro de 2005)

Veio para o Porto há 11 anos para desafiar o que diziam de Ricardo Pais. Que imagem tinha dele?
Uma imagem completamente desfocada, de uma pessoa difícil e colada ao poder, o que é uma injustiça. O Ricardo é um homem de teatro, verdadeiramente. Tem crises como toda a gente, mas tem uma capacidade imensa de juntar diferentes pessoas e criar um excelente ambiente de trabalho. Depois, é como todos os encenadores: é preciso conhecer bem a linguagem dele, perceber o que quer, estar disponível. Dou por bem empregue o tempo que aqui passei, mas o problema de trabalhar muito tempo com o mesmo encenador é ficar-se muito colado à sua imagem.

É uma colagem que lhe pesa?
Revolta-me sobretudo quando estou em Lisboa e ouço comentários maldosos. Trabalhei com 12 encenadores, apesar de ter sido com o Ricardo que estabeleci maior cumplicidade. Por outro lado, fico orgulhoso. Tenho muito apreço pelas coisas que fiz aqui.

Veio numa altura em que dizia não ter já nada a provar a ninguém. Mas foi no Porto que a sua carreira se consolidou...
Os realizadores de cinema não vão ao teatro - logo não conhecem os actores. Na televisão, as escolhas são muito aleatórias. O facto de ter reconhecimento aqui [no Porto] prende-se com a acumulação de espectáculos com sucesso, em que fui protagonista. Mas tenho a sensação de que se os tivesse feito em Lisboa, o impacto teria sido maior. Houve encenadores que deixaram de me convidar porque têm um sentimento de posse em relação aos actores e não aceitam quando dizemos "não". Trabalhar no Porto criou-me uma espécie de terra queimada em Lisboa.

Diria "não" a Ricardo Pais?
Já disse - em relação ao próximo espectáculo. Sair daqui é abandonar a casa-mãe. Mas preciso cortar o cordão umbilical.

Sente-se condicionado quando Ricardo Pais diz que não encenaria determinada peça se o João não estivesse disponível?
É uma forma de elogiar o meu trabalho, a nossa cumplicidade e isso deixa-me feliz. Ao mesmo tempo, coloca-me no fio da navalha. Sinto que tenho que fazer bem porque ele me escolheu. Foi o que aconteceu com 'Hamlet'. Achava que era muito cedo para o fazer.

Mas, na altura, desvalorizou...
Obviamente. Tinha que sacudir o peso da responsabilidade. Enquanto o actor, "As lições" [de Ionesco] até foram mais importantes porque, pela primeira vez, fiz um papel de composição com aquela extensão e dificuldade.

Recusar o próximo espectáculo no Porto implica novos projectos noutros sítios?
Não. Não sei o que vou fazer a seguir. Somos sempre trabalhadores a prazo. Se não fosse actor, já tinha ido embora. Estou cansado deste penico que é Portugal. Da mentalidade, da rasquice, das promessas adiadas, da irresponsabilidade, da impunidade, dos políticos, de algumas pessoas do meio. Apontamos, sistematicamente, os problemas e nunca nada se resolve. Estou cansado da palavra sobrevivência.

De certa forma, é essa a temática do "Ubu's". Revê-se nesta interpretação mais folclórica?
Completamente. É como todos os textos clássicos: suficientemente rico e aberto a imensas leituras. Revejo-me neste lado mais rasca do Ubu, mais folclórico, porque é o retrato do país. É actualíssimo. Portugal é um bocadinho medieval. Dom Ubu tem esse lado rasca dos país, das feiras, dos rabos, dos traques.

A crítica elogiou a sua "atitude física, vocal e facial". A que esforços o obriga Dom Ubu?
Estou constantemente a lutar contra os efeitos secundários do fato. Como tem muita espuma, cria um calor imenso, transpiração, dores de cabeça, de costas. É um trabalho árduo que, às vezes, impede-me de poder ir mais longe com o texto. Tenho que encontrar um equilíbrio entre o texto e o corpo. Chego ao fim do espectáculo completamente arrasado.

É uma peça que vive muito da reacção do público. Consegue abstrair-se disso?
Não. O espectáculo é uma comédia. Apanho bem a energia do público: nuns dias ri-se de coisas mais ordinárias; noutros, de coisas mais subtis. Nós também somos diferentes todos os dias.

Que expectativa tem em relação à digressão da peça que, pela primeira vez, será representada em Roma?
Não tenho. Ouço falar em digressões desde que aqui estou. Pela primeira vez, isso vai acontecer. Já não há efeito surpresa. Há uma certa frustração por saber que as pessoas não vão perceber tudo. Mas vai ser fantástico. Só tenho pena de não ir a Lisboa. Seria tão importante como ir a Roma.

A primazia dada aos textos clássicos é uma opção?
Tenho trabalhado, sobretudo, no Teatro Nacional, e aí faz-se teatro de repertório, textos simbólicos da dramaturgia clássica, que tratam como nenhum outro os problemas actuais. Mas já fiz, e continuo aberto a fazer, textos contemporâneos. Gostava muito de fazer Bernard-Marie Koltes.

"Não quero ser popular ou conhecido"

Nem sempre os textos que interpreta nas telenovelas portuguesas o satisfazem - às vezes tem que os salvar, algo que não gosta de fazer -, mas participar numa produção brasileira está fora de questão. João Reis gostava que "se investisse mais na qualidade". E gostava de fazer mais cinema - mas diz que "funciona num circuito fechado". Quem é ele para o romper?

Lamenta não fazer mais cinema em Portugal?
Claro. Mas a maior parte do realizadores não conhece os actores. É grotesco quando nos convidam para um filme com dois meses de antecedência - às vezes, com critérios completamente absurdos. O cinema funciona numa espécie de circuito fechado. Quem sou eu para o romper?

Manifestou sempre alguma aversão relativamente à forma de fazer televisão em Portugal. As telenovelas não cumprem a realização do actor?
Excluindo participações breves, o "Amanhecer" [exibido pela TVI] foi a que me deu mais trabalho. Gostei da experiência. De trabalhar naquele ritmo e naquele registo. Gostei de vencer as dificuldades do texto, de o salvar...

Mas não gosta de os salvar...
Porque não me pagam para isso. Pagam-me para o interpretar. Se o texto é, por natureza, mau - como é quase sempre em televisão -, o actor tem duplo trabalho. No início, pode ser desafiante, mas depois acaba-se por desistir.

Tornar perceptível para o público um texto de teatro não é também salvá-lo?
É. Mas uma coisa é pegar num texto cuja estrutura e funcionalidade são grandiosas. Outra coisa é pegar num texto pequenino. O objectivo é o mesmo, mas também há o prazer intrínseco do actor. E eu tenho mais prazer a lançar-me no Shakespeare do que nas obras pequenas que nos aparecem nas novelas.

Em "Amanhecer" contracenou com Fernanda Serrano, ex-manequim. Como enfrenta esta vaga de actores importados de outras áreas?
Não tenho prurido, nem preconceito, nem resistência. Mas as diferenças notam-se logo na contracena, que é a coisa mais difícil que há em teatro, no cinema ou na televisão. Há pessoas sem formação específica que funcionam bem; outras que não. O que me revolta é a facilidade com que as pessoas se intitulam 'modelo' e 'actriz', como se cinco minutos de aparição numa novela criasse o estatuto de actor.

Como encara o sucesso de "Morangos com açúcar"?
Não encaro. A minha filha, quando está comigo, não vê. As crianças estão a tornar-se demasiado prematuras: falam de adultério, beijos na boca, cama. É grotesco. A coisa mais fascinante da infância é a inocência.

Que virtudes encontra na actual produção nacional?
Há dois pontos de vista: o trabalho, sendo que, hoje, ele é distribuído por gente sem formação enquanto actores extraordinários permanecem na prateleira. E há outro: se as novelas fossem uma forma de aproximar as pessoas da sua realidade social, sem imitar o Brasil, era positivo. Quando os responsáveis perceberem que se investirem mais na qualidade os resultados podem ser melhores, teremos a chave da solução para o que pode ser a produção nacional dos próximos anos. Pessoalmente, não acredito que isso aconteça.

Colocaria como hipótese ir para o Brasil fazer uma novela?
Nem de longe nem de perto. Tive um convite e recusei. Não me interessa ser conhecido nem popular. Mais facilmente iria para Paris, Londres ou Estocolmo.

É ingrato ser mais conhecido pelo trabalho em televisão do que pelo teatro?
É, mas já aprendi a aceitar. Mais vale cinco minutos de televisão do que dez anos de teatro.

E ser mais conhecido pelas revistas sociais?
Tenho um péssimo feitio em relação à invasão da vida privada. Lido com isso de forma distanciada. Não alimento a máquina.

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