sexta-feira, outubro 07, 2005

Avelino Ferreira Torres


Catch me if you can

(Reportagem de Helena Teixeira da Silva publicada na Grande Reportagem a 7 de Outubro de 2005)

Não há nada de que não seja acusado. Ou quase nada. “Nunca me acusaram de matar, nem de droga, nem de pedofilia”, contraria, irónico, Avelino Ferreira Torres. “E ninguém me pode acusar de não ter trabalhado pelo Marco”. O Marco é Marco de Canaveses, concelho do interior, com 52 mil habitantes, que dificilmente seria conhecido se não fosse o invulgar mediatismo do seu presidente de Câmara, na recta final de uma maratona que dura há 23 anos. Este ano é candidato independente à autarquia de Amarante, sua terra natal. “Procuro ser justo. E na minha consciência nada me pesa. Digo isto com sinceridade”, sublinha, na sede de campanha, numa voz pausada acompanhada de gestos calmos, longe da impetuosidade que lhe é comummente atribuída.

Não lhe pesam, portanto, as acusações de peculato, de abuso de poder, de suborno a um inspector do IGAT, de promiscuidade entre a política e o futebol, de falências fraudulentas, de falsificação de documentos e desvio de fundos comunitários, de alteração do Plano Director Municipal para sobrevalorizar terrenos que, alegadamente, comprou ao desbarato. Alheio às acusações que sobre ele pendem, Ferreira Torres, 60 anos completados a 26 de Janeiro, avança uma explicação inédita: “Acredito piamente na justiça divina. E acredito muito em karmas. Acho que estou aqui a pagar por alguma coisa que familiares meus do passado fizeram. Um dia, expliquei esta minha teoria a um padre. E, passado algum tempo, ele disse-me que tinha lógica”.

O fardo, fruto daquilo que diz ser “uma perseguição política”, não parece preocupá-lo. “Há vinte anos que andam a dizer que vou ser preso e continuo aqui. Só tenho sido condenado a dar algumas esmolas”, afirma, numa referência aos advogados que o defendem. “Não me preocupo: eles vivem disso, e eu tenho nojo ao dinheiro. Só gasto o indispensável, porque vim do nada, de uma família pobre com 17 irmãos e nunca me esqueço disso. Cumpro à risca o evangelho”.

Mas Ferreira Torres, cuja incursão na vida política, em 1983, fica a dever-se a Vieira de Carvalho, falecido presidente da Câmara da Maia, não foi só condenado a dar esmolas. Este ano foi condenado num processo de peculato a três anos de prisão, em fase de recurso, e é um dos 171 arguidos no caso “Apito Dourado”.

Uma vez mais, o autarca, perspicaz no malabarismo com os temas que lhe poderiam provocar desconforto, desvaloriza a colecção de processos com um exercício de memória que o remete para a primeira vez que foi a tribunal, tendo sido condenado a pena suspensa. “Sou condenado porque sou sério”, observa. “Há uns anos, um jornalista do semanário “O País” fez-me uma entrevista sobre o assassínio do meu irmão, e eu disse o que sentia. Disse que sabia quem o matou. Ele publicou e o Ministério Público moveu-me uma acção pela gravidade daquelas afirmações. Podia ter entalado o jornalista e dizer que ele escreveu coisas que eu não disse. Mas não o fiz. Mantive aquilo que disse e fui julgado por isso. Por ser sério”, insiste.

O caso da morte de Joaquim Ferreira Torres, presidente da Câmara de Murça, assassinado em Paredes, a 21 de Agosto de 1979, quando conduzia um Porsche vermelho, prescreveu em Agosto de 1994, sem que nunca tenha sido encontrado o autor do crime. Ferreira Torres teima que sabe quem puxou o gatilho. “Eu já tinha uma pontinha de investigador, mas a partir deste caso, passei a perceber todas as golpadas que os investigadores fazem. Não descobriram o assassino do meu irmão porque não quiseram. E eu, como não tenho espírito para matar, voltei à minha vida normal”. Não tem espírito para matar, mas sabe que há quem acredite que recruta equipas para bater em determinados inimigos. “É mentira. Sou incapaz de, premeditadamente, fazer um ajuste de contas. A canalha vem oferecer-se para bater, mas eu nunca aceito. O meu staff sou eu. Não mato sequer um insecto insignificante”.
O rasto das acusações entregues na Procuradoria Geral da República no curso dos últimos anos contra Avelino Ferreira Torres – a maioria da autoria de Gil Mendes, secretário da Junta de Freguesia de Ariz, eleito pelo PSD -, poderia ter-se dissipado do circo público, se não fosse José Faria, ex-testa-de-ferro do autarca e funcionário da Câmara do Marco de Canaveses, ter tentado matar-se com um tiro na cabeça em Agosto deste ano. “Comecei a ficar tolo”, afirmou numa entrevista exclusiva ao 24 Horas, poucos dias depois de ter tido alta do Hospital de S. João, no Porto, onde esteve internado uma semana.
José Faria confessou ter perdido a cabeça devido à procuração irrevogável passada por Avelino, em 1990, e com a qual comprou e vendeu tranquilamente dezenas de propriedades, até ser notificado pelo Fisco para pagar 60 mil contos. À banca diz que deve mais de 300 mil contos. “Aquele dia não era para ser assim. Eu hoje podia estar na cadeia”, disse o trabalhador municipal, que aufere cerca de 550 euros mensais. A revelação será, apenas, a ponta de um iceberg que o funcionário - entretanto aconselhado pelo advogado Pragal Colaço a não prestar mais declarações à Comunicação Social - parece determinado a não continuar a encobrir.

Mas sobre o acto tresloucado do seu ex-colaborador, Ferreira Torres não quer falar. “Só posso dizer que não me vou atirar a ele, ao contrário do que as pessoas dizem. Rezei muito e sempre soube que não ía morrer.”, assegurou ainda antes da alta de José Faria. Reconhece ainda que lhe comprou alguns terrenos, uma vez que o funcionário possuía uma imobiliária, e que tem documentos que provam que José Faria lhe deverá muito dinheiro. De resto, visitou-o duas vezes no hospital e achou que ele “está doente”.

“Sou impulsivo, mas choro com muita facilidade. As pessoas não me conhecem e a culpa é dos jornalistas que não olham a meios para atingir os fins - fins políticos e encomendados. Fico magoado com a imagem que passam de mim. Como é possível dizerem-se atoardas a meu respeito quando são totalmente mentiras?”, questiona indignado. Hoje, já não lê jornais para “conseguir levar a cruz ao calvário”.Avelino Ferreira Torres, admirador de Marquês do Pombal e devoto de Santa Teresa de Lizier, em França, onde ruma todos os anos a 1 de Outubro, é o décimo quarto filho de Manuel Nunes Ferreira e Ilda Ribeiro Torres, ambos falecidos. “Não me lembro do dia em que a minha mãe morreu, porque não sou bom a fixar datas. Mas ela era impecável. Não nos deixava andar sujos. A roupa era sempre limpinha. Quando havia um rombo, ela ia buscar umas calças velhas que dissessem mais ou menos com aquelas e cozia”, emociona-se.Nasceu na freguesia de Rebordelo, em Amarante, onde está a reconstruir a casa onde nasceu, e é lá que tenciona iniciar a campanha eleitoral. “Não sou nenhum pára-quedista. Vivi cá até aos 15 anos e nunca me esqueci das pessoas. Entendo que devo dar aqui o mesmo que dei noutras paragens”, argumenta.

Numa família numerosa, cedo sentiu a necessidade de começar a trabalhar. Primeiro numa empresa de abate de madeira, depois a guardar rebanhos nas serras. Aos 15 anos, Joaquim, irmão mais velho e mais rico, leva-o para Rio Tinto, onde residia, e lança-o no mundo empresarial. Ele agarra a oportunidade e, oito anos depois, torna-se presidente do Sport Clube de Rio Tinto. No mesmo ano, casa com Rosa dos Santos Cunha, que conhecera entretanto. Aos 24 anos regressa ao Marco, para associar-se aos irmãos Rodrigo e Manuel na gestão de uma serração. A partir daí, os negócios sucedem-se e sobrepõem-se a uma velocidade inimitável.No início dos anos 80, abre a sua própria serração e multiplica o ramo empresarial: confecções, tipografias, jornais. Algumas fábricas acabaram por fechar, falidas ou ardidas. Os encerramentos, considerados suspeitos, deram origem a um processo por falência fraudulenta, num caso; e suspeita de fogo posto, no outro. A primeira acusação, referente às Confecções Ferreira Torres, falidas em 1996, foi formalizada no início de Setembro pelo Ministério Público.

Quando regressa ao Marco, Ferreira Torres começa também a investir dinheiro no clube da terra, o Futebol Clube do Marco. A dedicação acaba por conduzi-lo à presidência do clube, que se orgulha de ter colocado na II Divisão Nacional. No fim da década de 90 já integra o Conselho Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. A política autárquica seria o passo seguinte. Em Setembro de 1983, o Executivo de coligação PSD/PS renuncia o mandato numa altura em que ele está no hospital a recuperar de uma operação ao estômago. “Nunca acreditei que pudesse ficar bom. Estava lá a preparar a minha morte quando o professor Vieira de Carvalho, numa visita, disse que queria que eu me candidatasse à Câmara do Marco”, recorda. Os médicos desaconselharam-no e ele interpretou a opinião como uma sentença de morte. “A minha mulher viu-me tão triste que, para me animar, disse que devia ser candidato”. Em Outubro desse ano, Ferreira Torres concorre pelo CDS e vence com maioria absoluta. O resultado repetiu-se até 2000. E ele sente que cumpriu a missão.

“Dou apenas um exemplo: Amarante tem um pavilhão gimnodesportivo; o Marco tem 10. E ainda vou inaugurar mais dois antes de ir embora.” Acredita que se “não fossem as vitórias políticas, não tinha inimigos. Ganhei sempre a Câmara por um partido pequenino. Mas nunca me deram ordens. Eles sabiam que eu não sou um “Yes man”. Eu respeitava os presidentes, fossem eles quais fossem, e eles respeitavam-me a mim e à minha autonomia. Se me perguntarem: está arrependido de ter sido do CDS? Não, não estou, porque me deixaram ser livre. O PS e o PSD não deixam os seus autarcas serem livres. Impõe-lhe regras e é por isso que Amarante não evoluiu nestes 16 anos”, sentencia.

Manuel Monteiro, ex-líder do CDS, diz guardar boas recordações do autarca. “Sempre recebi dele um tratamento de grande respeito e consideração”. Quanto às acusações que sobre Ferreira Torres pendem, afirma que não lhe compete pronunciar-se. “O que se passa em Portugal, de um modo geral, é de uma gravidade tal, que resumir a questão ao Avelino é tentar tapar o sol com a peneira. Aos políticos convém encontrar bodes expiatórios para que outras situações menos mediatizadas passem incólumes. Quantos candidatos a deputados têm problemas judiciais?”, questiona. E acrescenta: “O que está a acontecer com a complacência das autoridades máximas do país e o silêncio do Presidente da República é gravíssimo. É urgente lançar um debate para se saber o que é que deve prevalecer: a lei ou a suspeita? Perante a lei, todos são inocentes até prova em contrário. Mas se prevalecer o bom senso político, as pessoas não devem ser candidatas quando sobre elas há suspeitas de foro judicial. Mas enquanto os políticos continuarem a beneficiar do quadro de imunidade tudo isto vai, infelizmente, continuar a acontecer”.23 anos depois de “uma gestão despesista”, que levou a autarquia marcoense a uma situação de pré-falência, Filipe Baldaia, candidato à Câmara do Marco pela CDU, acusa o autarca de “75% do concelho continuar sem rede de abastecimento de água e 80% não ter saneamento”. A água que foi, recentemente, entregue a uma empresa privada, “é a mais cara do país e a segunda mais cara da Europa. O Marco cresceu, apenas, em betão e em número de habitantes; não teve um desenvolvimento equilibrado nem sustentado”. Os dados do Ministério da Educação corroboram a crítica: Marco de Canaveses é o quinto concelho do país onde se regista maior abandono e insucesso escolares – o equivalente ao dobro da média nacional.

Luís Almeida, engenheiro civil e candidato socialista ao Marco, encontra uma virtude na transferência de Ferreira Torres para Amarante. “Vamos passar os próximos vinte anos a pagar a dívida que ele deixou, mas aqui vivia-se um clima de medo. E agora as pessoas libertaram-se das amarras. A prova é que foi criada uma comissão de utentes para protestar contra o aumento da água, entre quatro a oito vezes mais caro do que o dos municípios vizinhos. A 3 de Agosto houve uma manifestação com 2500 pessoas a reclamar na rua. Antigamente, isso seria impensável”.

“Com a saída dele, fecha-se um ciclo”, completa Manuel Moreira, cabeça de lista do PSD. “A partir de agora, é importante que o concelho seja falado e conhecido pelas coisas positivas”. Só Norberto Soares, candidato pelo CDS – conhecido no meio como o “delfim” de Ferreira Torres, cujo filho, é número dois na lista -, não comunga desta avaliação. “Quem conhecia o Marco, e quem o conhece hoje, percebe que houve uma alteração muito grande no seu desenvolvimento urbanístico, empresarial, económico e social”. O mérito, ressalva, “é também da determinação de algumas pessoas da sociedade que encontraram aqui uma oportunidade para desenvolverem a sua economia”. Quanto ao antecessor, é taxativo: “É um lutador, um homem determinado a alcançar os objectivos a que se propõe. Luta pelos seus ideais até à última gota”.

A caracterização tem, pelo menos, um discípulo. “Acredito no Avelino e acho que ele é o homem certo para Amarante, neste momento”, afirma António Pedro, 61 anos, director do jornal “O Tribuna de Amarante”, garantindo que não confunde a sua opinião com a opinião do jornal. “Qualquer um pode escrever o que lhe apetecer no jornal, desde que não insulte ninguém”. O jornalista lamenta, no entanto, “a campanha caluniosa” a que está a assistir-se em Amarante. “Todos andam a caluniar o Avelino, chamam-lhe assassino, e ele não calunia ninguém”.

De resto, Ferreira Torres rejeita todas as acusações, incluindo a de ter enriquecido, deixando a Câmara do Marco à beira do colapso financeiro. “Isso é uma estupidez. A situação está perfeitamente dentro da lei. Atravessamos algumas dificuldades quando a ministra Manuela Ferreira Leite esteve no governo, porque estávamos a contar ir buscar um milhão e 300 mil contos, previstos na lei das finanças locais, e ela cortou essa possibilidade. Mas há males que vêm por bem, porque a lei prevê o reequilíbrio financeiro e foi o que nós fizemos. Entretanto, os juros baixaram, e conseguimos uma verba muito maior e pouco mais está a pagar-se por mês”.

Em relação ao património pessoal, assegura que o cenário é mais grave: “Se me quiserem pagar as minhas dívidas ou dar-me 200 mil contos, eu dou tudo o que tenho. Só quero ficar com a minha casa”. E, já agora, com a Quinta de Segoiva, em Tuías, o seu já designado “sonho jamaicano”. “Vai ser uma estalagem de cinco estrelas, mas está a ser mais cara do que eu julgava”.

Gil Mendes, que desde de Maio de 2003 envia cartas ao Procurador Geral da República, com provas contra Ferreira Torres, tendo, inclusivamente, sido já agredido por ele, não acredita em nada do que o autarca diz e acusa-o “de acreditar nas próprias mentiras”.“As autoridades deixaram criar este monstro e agora não o conseguem agarrar. Depois de tudo o que foi tornado público, se Ferreira Torres não for preso até ao fim do ano, é porque este sítio onde vivemos é um país de bananas”, desabafa.

“Ele é um homem perigoso, que não respeita as leis. Os dados que estão na posse dos magistrados já são suficientes para o prender. Mas ninguém o faz, porque ele goza de total impunidade”, retorna Luís Almeida. “Há dias, um homem forte da Polícia Judiciária confessou a um amigo meu que se o Avelino perder as eleições em Amarante, irão prendê-lo. Se ganhar, será muito difícil. Ou seja, neste país só é preso quem perde as eleições do Benfica ou da Câmara”.Recusando resignar-se, José Adelino Maltez, professor catedrático de Ciência Política, no ISCSP, em Lisboa, diz ter, apesar de tudo, “esperança na resolução de casos como este”.
“A democracia portuguesa viveu a doce ilusão de que não havia grupos de interesses e viveu na clandestinidade em relação a financiamentos partidários. Ou seja, a culpa disto tudo, foi a hipocrisia generalizada, que não quis assumir que havia corrupção. De repente, rebentou a rebeldia, que não produziu qualquer golpe de Estado, mas um desencanto colectivo. O grave não é haver denúncias; grave é que estes autarcas continuem a ganhar”. E esclarece: “Avelino é o ramo de uma árvore; o problema está na floresta”.“Nunca aceitaria trabalhar com um candidato como Avelino Ferreira Torres”, garante António Cunha Vaz, especialista em comunicação e imagem, responsável por inúmeras campanhas nacionais e regionais. “Em primeiro lugar, para aceitar, teria que acreditar no candidato, nas suas ideias, na sua forma de estar na vida e ele teria que cumprir alguns princípios da nossa consciência democrática. Em segundo lugar, não acredito em mandatos em número ilimitado nem numa democracia de base populista”.
Cunha Vaz, que assina a campanha de Carmona Rodrigues, em Lisboa, vai mais longe na sua sentença: “Numa democracia madura, ele nunca poderia ser candidato. Ele não gere a sua imagem; cria ilusões com viagens de helicóptero, que só se compadecem com um tipo de eleitorado menos esclarecido. O único trabalho sério que poderia fazer com ele seria retirá-lo da política e dizer-lhe que fica bem em programas como a “Quinta das Celebridades”.

A Quinta das Celebridades, reality-show emitido pela TVI, contou justamente com a presença do autarca na última edição. “Tenho consciência que os responsáveis pelo programa me queriam ver lá, porque achavam eu ia chatear o Alexandre Frota, o Castelo Branco, o jet-set, e dar umas bofetadas a quem se portasse mal. Mas saiu-lhes o tiro pela culatra”, conta Ferreira Torres. A experiência foi “positiva” porque ficou “amigo de todos, sem impostorice”, e porque diz não ter recebido um tostão. “Estive lá 17 dias. Assinei um contrato que dizia que uma metade do cachet era para a CERCI do Marco e a outra metade para a CERCI de Amarante. Não sei quanto dinheiro foi, mas admito que tenham sido alguns milhares de contos”.

A generosidade de Ferreira Torres que, ultimamente é estendida às associações de Amarante, a quem tem entregue cheques com quantias generosas, não convence João Magalhães, ex-presidente dos Amigos do Marco, Associação que fundou em 1998 em nome da liberdade de expressão. “Ele não engana ninguém. A primeira vez que ganhou as eleições no Marco, fê-lo destruindo o outro candidato com comunicados anónimos. O estratega da campanha é o mesmo de hoje, Sanhudo”.

Sanhudo Portocarreiro, cujo nome verdadeiro é António Monteiro Novais, cortou relações com Ferreira Torres pouco depois destas eleições, transformando-se num dos seus piores inimigos. Em 1996, chegou mesmo a enviar uma carta ao Procurador Geral da República denunciando: “Vive-se neste concelho um clima perturbado com desvios de milhares de contos, compras de mansões e quintas, restauradas no Marco e em Vila de Conde, por pessoal ligado à autarquia e com ameaça de despedimento a diversos funcionários que não acatem pontualmente as ordens do presidente. O mesmo presidente e alguns funcionários qualificados que actuam sobre pressão e grandes ameaças, vêm danificando documentos, actas e falsificando outros”. E solicitava: “Peço sigilo, pois trata-se de um homem desnorteado e até perigoso”.

Antes desta carta, já Sanhudo tinha elaborado um documento a que chamava “Concurso – Para tirar o Marco do anonimato cultural”, cujas questões não passavam de denúncias cifradas sobre a conduta de Ferreira Torres. “Quem mandou telefonar uma madrugada ao Sr. Eulalio Fonseca de Amarante ameaçando-o de morte, em nome dos Guerrilheiros de Cristo Rei? Quem trás do estrangeiro microfones ultra-sensíveis e secretos para devassar conversas? Quem foi ao jornal Comércio do Porto ameaçar o director? Quem é que compra capangas no Porto a onze contos para bater a A ou a B? O rol de perguntas era interminável, mas alguns anos depois, António Novais negou ser o autor de tudo. Em 2000 assinou a laudatória biografia de Ferreira Torres “O homem. O presidente”, e hoje é, garante João Magalhães, “assessor da Câmara com um salário de 500 contos, sendo a mulher também funcionária municipal”.

“Ferreira Torres sabe que a maioria das pessoas tem um preço. E ele vai até ao preço certo”, retorna o socialista Luís Almeida. João Magalhães, alvo de um processo de difamação agravada colocado pelo autarca do Marco, e do qual foi absolvido, cansou-se de lutar e desistiu. “O sistema não funciona. A minha família viveu anos terríveis por eu ter exercido o meu direito à cidadania, que só serve para desenvolver inimigos nos interesses instalados. E ninguém nos defende: nem a justiça, nem a polícia, nem os partidos, que só incentivam ao silêncio e à prática camaleónica”.No hall de entrada da sede de campanha de Avelino Ferreira Torres, em Amarante, um homem calvo agarra-lhe no braço e sussurra-lhe: “Veja lá, senhor presidente, o que pode fazer por mim”.
O autarca, que diz ter “duas formaturas: a da vida e a de gestão de empresas”, e que diz gostar de reconciliar casais nas horas livres, acena afirmativamente coma cabeça. “Não sou cinzento. Não gosto de dizer não. Mas quando é para dizer sim, gosto que digam logo. Não vale a pena gastar muita saliva quando a meio da conversa já percebi o que as pessoas querem”, explicaria mais tarde.

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