quinta-feira, setembro 13, 2007

Manuel Serrão



"A firma Salgado & Salgado
dobrou a facturação"

Chega ao Bela Cruz, a meio da manhã , com pouco mais de uma hora disponível antes de apanhar um avião. Na mesa de café, gastou-se metade desse tempo, com vários intervalos para atender o telemóvel. Manuel Serrão, 47 anos, empresário do Norte, fala como quem canta, afinado e sem parimónia.
[Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada a 30 de Julho na série Farpas do Jornal de Notícias]

Ter organizado as festas do circuito da Boavista, significa que mudou de opinião em relação à pertinência do evento?
Rendi-me, sim. Eu próprio fui um crítico, na primeira edição, mas depois rendi-me ao sucesso que teve e às potencialidades que encerra. Como desta vez acompanhei de perto algumas das actividades paralelas, e exactamente porque algumas delas foram muito menos conseguidas do que poderiam ter sido, acho que o evento tem potencialidades para o Porto, teve impacto nacional e internacional. As pessoas mostraram, pela adesão ao circuito, que gostam do espectáculo. E pela adesão às eleições, que também não há nada a fazer em relação ao presidente da Câmara. Eu também não votei nele.

Em 2004, chegou a ser apontado como o próximo senhor de Matosinhos. Tem ambições políticas?
Não sabia dessa. Sou do Porto, nasci e vivo aqui. Tenho o meu escritório em Matosinhos, cidade de que gosto muito, é a minha sala de jantar. Mas não tenho qualquer ambição política.

Em nenhuma das cidades?
Em lado nenhum. Ser político é como ser padre: é preciso vocação de serviço público. E eu não tenho; sou 100% a favor do investimento privado. Infelizmente, quem tem revelado essa vocação de serviço público, é um conjunto de personalidades que não estão no topo de gama da sociedade portuguesa. Perdemos todos com isso.

Disse que, no seu tempo, Marques Mendes não chegaria sequer a chefe de turma. Chegou a chefe do partido. Manterá a posto em Setembro?
[Risos] Sempre achei muita graça a Marques Mendes, como acho a Santana Lopes. Mas achar graça às pessoas não quer dizer que achemos graça a que elas façam tudo na vida. Marques Mendes era um fantástico líder parlamentar, um ajudante de Governo super eficiente, como dizia Cavaco, com qualidades que o recomendam para uma série de lugares. Para líder do partido e da oposição, pelas provas dadas, não serve. Espero, para bem dele e do PSD que, quando deixar de ser líder, em vez de se por andar por aí sem fazer nada, possa ficar noutra posição a ajudar o partido. É claramente uma pessoa com vocação de serviço público. Tem é menos vocação para primeiro-ministro ou para líder da Oposição.

Está a insinuar que perderá para Menezes?
Se fosse militante do PSD, acho que valia a pena dar a oportunidade ao doutor Menezes. Embora a gente saiba que o facto de só haver pessoas oriundas do Norte a concorrer, queira dizer que não está prevista nenhuma chegada ao poder do PSD durante o próximo mandato.

No dia em que nasceu a sua filha foi inaugurado o Estádio do Dragão. Onde esteve?
Nos dois lados, física e espiritualmente. Obviamente, estive primeiro no nascimento da Joana, mas não podia falta também à inauguração. É uma coincidência feliz, porque ela é sócia desde esse dia, o que quer dizer que vai ter muitas festas na vida.

Quer dizer, também, que ela passou-lhe a perna. Só se fez sócio do FCP aos 11 anos…
Ela teve um pai mais competente que o meu nessa matéria.

Está satisfeito com a equipa do FCP?
Estou satisfeito com a parte da tesouraria, porque acho que conseguimos vender bem alguns jogadores que tínhamos pelo valor justo, ao contrário de outras vezes, em que mais valia ter ficado o jogador do que o dinheiro. Neste momento, pelos valores que foram conhecidos, e imaginando que todos entraram nos cofres do clube, eu acho que mais vale assim. O seguro morreu de velho e este já cá está. O que sobrou em termos desportivos, ainda é uma incógnita. Espero que esta leva de contratações que vêm substituir as boas vendas seja de uma safra melhor do que aquela que se seguiu às nossas jóias de 2004.

A transição de Vítor Baía para a direcção do clube é um fim digno?
Ele tem feito uma gestão muito inteligente da sua carreira e não consigo imaginá-lo a ter um fim menos digno em caso algum. A transição podia ter sido melhor preparada e melhor congeminada. Houve ali um tempo de hesitação que não foi para o Porto nem para ele. Foi uma novela triste, que acabou por ter um fim feliz. Embora, mais uma vez, seja preciso deixar passar uns tempos para ver qual é o papel que lhe está efectivamente reservado. Ele próprio quererá ver. Se for para ficar lá numa jarra a fazer de bibelot, pelo que conheço dele, ele próprio não quererá. Como sócio e adepto do Porto, ficaria muito triste se fosse esse o papel. Quero crer que não, e estou convencido de que terá um papel crescente na divulgação do clube. Ele é para nós o que o Eusébio é para o Benfica e, pelo seu perfil, pode dar, em termos de gestão desportiva, um grande contributo. Estamos a precisar.

Leu a biografia de Pinto da Costa?
Não, e não senti grande necessidade porque é uma personalidade que acompanho desde tenra idade e tenho boa memória. Além de que, normalmente, só gosto de ler biografias de pessoas mortas. É como as homenagens: quando são feitas em vida, corremos sempre o risco de nos desiludirmos. Vou lê-la quando ele morrer e espero que seja daqui a muitos anos.

Quer dizer que ainda pode desiludir-se com Pinto da Costa?
Enquanto uma pessoa está viva, está sempre a tempo de fazer asneiras.

E o livro de Carolina Salgado, leu?
Também não. Mas aí, já não foi por ter acompanhado a carreira dela. Leio muitos jornais e acho que já li tudo sem ter que gastar dinheiro.

Tem posição sobre as declarações das irmãs Salgado?
A minha posição é a de um contabilista que, analisada a situação, verificou que a firma Salgado & Salgado dobrou a facturação.

A ideia do “Porto cidade de trabalho” está ultrapassada?
Os portuenses são uns trabalhadores natos, mas face aos dados de desemprego, qualquer dia passa a ter a cidade sem trabalho. Isto é mau para o Porto, mas porque é que não se vê aqui, o que se viu em Setúbal quando o desemprego andou por aquela zona? Isso mostra como as pessoas são diferentes. Quando, em Setúbal, fecharam algumas fábricas, as pessoas sentaram-se a um canto e só se levantaram para fazer manifestações e greves de fome. Ficaram à espera que o Estado resolvesse problema e ele resolveu, colocando lá empresas como a Ford. No Norte, as pessoas não fazem manifestações; arranjam biscates, emigram, vão seis meses para a Suíça juntar dinheiro, vão para o campo, não ficam paradas, nem têm tempo para actividades políticas

É muito fácil dizer isso na mesa de café sobre os outros, não é?
Só disse isto para mostrar que, face a uma situação má, o temperamento das pessoas do Sul e do Norte, é completamente diferente. Não estou a elogiar a situação, pelo contrário. Mas, se esta taxa de desemprego fosse no Sul, já tinha havido um conflito social que aqui não existe. Admito que vá ser pior agora, com os arrumadores, que voltaram a estar desempregados com o fim do Porto Feliz...

Essa diferença entre as pessoas do Porto e Lisboa é válida para tudo?
Vivo em Lisboa oito anos. E posso dizer que a maneira como as pessoas reagem revela dois países completamente diferentes: nos feitios, nas atitudes, nas formas de pensar. E há ainda as que foram da província para lá. Em relação a essas, a diferença é ainda mais radical. Não estou a julgar, mas as pessoas do Porto prezam a casa, a vida familiar; em Lisboa, podem morar num pardieiro, mas depois fazem vida de rico no restaurante.

Participou num sketch dos Gatos Fedorentos fazendo de cromo do Porto. Não teme transformar-se na sua própria caricatura?
Sou amigo dos Gatos antes de eles serem gatos. Acho graça ao humor deles. E acho que as pessoas percebem quando estou a brincar ou a falar a sério. Quando não percebem o problema é delas.

Foi um problema de Bagão Félix não ter percebido que estava a brincar quando escreveu que ele era amante da secretária?
Isso não é verdade. Mas não falo sobre isso. Está em segredo de justiça.

O Porto Canal é mais uma tentativa audiovisual para afirmar o Norte. Desta vez, é de vez?
Gostaria que fosse, mas é mais um exemplo da falta de consciência de alguns empresários da região, que passam a vida a queixar-se doa indiferença a que são votados por Lisboa, mas quando surge um projecto que quer projectar o Norte, não ajudam a que o projecto seja apoiado e tonificado. O Canal luta com dificuldades e está a ser ajudado mais pelos espanhóis do que pelas pessoas do Norte. Infelizmente, as pessoas do Porto ainda não perceberam que é essa lógica regional que serve melhor os seus interesses.

Mas vê o canal?
Vejo e vejo a gritante falta de meios. Vejo algumas ideias muito boas e outras que, sendo boas, não funcionam devido a essa falta de meios. É o canal ideal? Não. Mas, pelo menos existe, e está a lutar para melhorar. Tenho esperança que alguém queira suprir essa falta de meios para que as pessoas da região possam rever-se mais ali.

Quem, como é o seu caso, está habituado a lidar com as mulheres mais bonitas da moda, aprende a desvalorizar a beleza?
Aprende a valorizar. Quanto mais convivo com a beleza mais sensível fico a esse valor. Mexo-me na moda onde há mulheres muito bonitas, mas também homens bonitos. Portanto, se tivesse, por causa disso, que ter alguma atitude prática, até poderia ter alguns actos contra natura. Mas não preciso de falar da moda…

…já sei, no seu escritório também só há mulheres…
Oito mulheres muito bonitas e competentes. São a minha fonte de inspiração.

Admite, agora que já não está na ANJE, que o Portugal Fashion internacional nunca deu os frutos esperados?
O Portugal Fashion começou de uma forma que não era a ideal, mas era a possível. Não havia desfiles individuais, mas colectivos e de marcas. Tínhamos consciência de que era a única forma de conseguir apoios, na altura, para prosseguirmos o projecto. Hoje, quando vemos que, em S. Paulo, os únicos estrangeiros são os portugueses, quando vemos que em Paris temos total facilidade em encher salas com jornalistas, verifico que o nosso objectivo foi cumprido. A ideia nunca foi colocar os criadores portugueses a vender como o Yves Saint Laurent ou a Dior. Era fazer um upgrade de imagem para que Portugal não fosse, apenas, o país da indústria têxtil, mas também da moda.

Miguel Esteves Cardoso, de quem recentemente disse ser um génio, tem uma crónica sobre a boa disposição, onde revela que o segredo da dele é “sentido de proporção, sentido de humor, capacidade de disfarce e vontade de agradar”. Qual é o segredo da sua?
Não li essa crónica, mas subscrevo inteiramente e acrescento que o segredo da minha boa disposição é o mesmo da minha felicidade: só quero aquilo que sei que é possível. Não tenho o sonho de ir à lua. Os meus objectivos são todos atingíveis, o que não quer dizer que não precise de trabalhar, de ter sorte, boas parcerias e bons amigos.

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