quinta-feira, setembro 13, 2007

João Fernandes


"Permita-me duvidar das 800 mil visitas ao CCB"

Está em Aljezur, concelho algarvio emoldurado por mar e montanhas. E onde raras vezes consegue ter-se rede para atender o telemóvel. João Fernandes, director do Museu de Serralves, no Porto, desde 2003, conseguiu. Respondeu à entrevista por mail, mas deixou, cordial como sempre, o telemóvel às ordens.
[Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada a 22 de Agosto de 2007 na série Farpas do Jornal de Notícias]

Há pouco tempo, José Sócrates reuniu-se em Serralves com agentes artísticos do Porto convidados por si e uma artista plástica beijou o PM na boca. Achou graça, como atitude irreverente, típica de artista, ou ficou embaraçado?
Em primeiro lugar, os artistas não foram convidados por mim, mas sim pela Fundação de Serralves, a pedido do Gabinete do Senhor Primeiro Ministro. Em relação ao facto de que fala, sim, achei graça, se bem que só tenha achado graça, por o ter considerado bastante gratuito.

Gostava de ser uma espécie de Durão Barroso das artes, isto é, de abandonar Serralves para o topo da Europa a nível museológico?
Um museu demora bastante tempo a construir, mas pode também ser destruído muito rapidamente. Enquanto continuar a ter as condições adequadas para desenvolver o projecto de museu que estamos a construir em Serralves, jamais o deixarei a meio. No dia em que esse projecto seja estável no seu futuro, não comprometendo o que até aí foi realizado, terei o meu papel cumprido e poderei estar disponível para outros desafios. Há ainda muito para fazer até esse momento.

Não sente vontade, de vez em quando, de tirar férias do meio artístico. De fazer, por exemplo, turismo gastronómico ou assim uma coisa mais prosaica?
Muitos foram os artistas que, ao longo das últimas décadas, tornaram indistinguíveis as fronteiras entre a arte e a vida. Trabalhar com artistas não me impede de viver, propicia-me pelo contrário momentos de vida inesquecíveis. Alguns deles também são gastronómicos... Não gosto no entanto de ser turista, prefiro viajar em trabalho.

É director da instituição artística de maior sucesso no país, mas nunca aparece em notícias do social. Foge desse mundo ou esse mundo que não demonstra interesse por si?
Se esse mundo de que fala é o mundo das revistas sociais, claro que o evito, dado que ele em nada me interessa nem em nada se relaciona com o meu trabalho. Espero bem obter desse mundo a mesma indiferença que eu lhe dedico.

Imaginemos um projecto transversal arte-música, admitia convidar um artista pimba para Serralves como gesto contemporâneo?
Não sei o que é o "gesto contemporâneo" de que fala. Mais do que apenas a contemporaneidade, é também o experimentalismo que caracteriza a programação de um museu de arte contemporânea. Convido artistas pelo trabalho que fazem e não me parece que o contexto musical de que fala tenha o seu lugar de recepção ou de apresentação ideal no Museu de Serralves...

Incomoda-o que Serralves seja recorrentemente apontado como exemplo da vitalidade da cultura no Porto, servindo para encobrir a real ausência de vida cultural na cidade?
Serralves "não encobre" a "ausência" de vida cultural na cidade. Trata-se de um projecto que tem corrido bem, mas que não é tudo na cidade do Porto. Todos teríamos a ganhar se a vida cultural da cidade não fosse feita apenas de alguns oásis no deserto...

Diria que é a única instituição da cidade que o actual Executivo não consegue beliscar?
A independência do projecto artístico de Serralves é reconhecidamente uma das condições necessárias do seu sucesso. Felizmente, essa independência tem sido respeitada e reconhecida pelos contextos sociais portugueses, sejam eles económicos ou políticos. É sempre de lamentar quando outros projectos culturais não reunem as mesmas condições para o desenvolvimento do seu trabalho...

Rui Rio é uma boa desculpa para a preguiça dos artistas?
Não faço a injustiça ao Dr. Rui Rio de crer que ele seja desculpa para o que quer que seja. Não sei também de que preguiça dos artistas fala. Por vezes, a preguiça pode ser condição necessário do trabalho de um artista...

Disse que "o sucesso de um museu não é comensurável pelas estatísticas". Nesse caso, por que insiste em divulgar os números de visitantes?
Não trabalhamos para bater recordes de público, mas ficamos obviamente satisfeitos quando constatamos que o público acorre ao museu em grande número.

Reconhece que há alguma pressão para que uma exposição bata sempre o recorde da anterior?
Não, não reconheço essa pressão. A única pressão que tenho sentido é a dos jornalistas que me perguntam sempre qual vai ser a exposição mais visitada do ano ou estabelecem tais comparações a esse nível. Trata-se de uma pressão amável que não interfere em nada com a nossa programação.

Não são justamente os números que fazem com que Serralves tente equilibrar autores seguros com outros mais difíceis?
Confesso-lhe que não aceito a distinção entre "autores seguros" e "autores difíceis". No entanto, suponho que se refere ao facto de certas exposições com artistas já muito reconhecidos projectarem e ampliarem igualmente a curiosidade dos públicos em relação a outros artistas menos conhecidos. É um facto com o qual também procuro trabalhar.

O CCB de Berardo já conseguiu mais de 800 mil visitas. É, neste momento, o principal concorrente (se é que se pode falar de concorrência neste campo) de Serralves?
Onde foi buscar esse número? Permita-me duvidar dele, se bem que deseje ao Museu Berardo os melhores índices possíveis de públicos. É bom para todas as instituições culturais em Portugal o sucesso de outras instituições que operem no mesmo contexto. Serralves já terá contribuído e continuará a contribuir para criar públicos interessados em visitar outros museus, incluindo a Colecção Berardo. O mesmo acontecerá em relação a Serralves com o sucesso de visitantes dessa Colecção.

Diria que Joe Berardo é um coleccionador ou um comprador de arte?
É indubitavelmente um comprador de arte e um coleccionador. Falta-lhe ainda um ponto de vista que lhe confira uma identidade única e singular enquanto coleccionador, mas tal demora por vezes décadas a ser conseguido numa colecção particular.

O Público tornou esta semana pública uma polémica que existia apenas em circuito fechado. A sua intervenção no blogue foi, também, uma necessidade de se justificar?
Não, a minha participação nesse blogue procurou apenas contribuir para uma discussão que necessita ainda muito de continuar a ser desenvolvida no contexto artístico português. Neste contexto, assim como na generalidade da sociedade portuguesa, a discussão crítica e o confronto de pontos de vista diferenciados necessitam ainda de muito estímulo e pouco dramatismo.

Não estando nas competências do Museu abraçar o tecido artístico emergente, seria mesmo impensável criar uma espaço de experimentação que permitisse inverter o circuito, ou seja, facilitando a incursão dos artistas no tecido internacional?
Um Museu deve ser sempre um espaço de experimentação. No entanto, no que diz respeito aos artistas mais jovens, seria muito mais natural que uma instituição específica na sua programação se dedicasse a esse contexto. A identidade de um museu, incluindo a sua programação, é sempre também uma consequência dos objectivos da sua colecção. Defendo que um espaço de experimentação para artistas mais jovens não deva ser contaminado por esta questão da colecção, por exemplo.

Não é perigosa a ideia de que a falta de condições que sempre existe na cidade permite criar movimentos alternativos?
Essa constatação não é perigosa, é um facto. Um grande artista brasileiro, Hélio Oiticica, dizia: "Da adversidade vivemos...".

Num país tão reduzido, não é estranho que o Porto seja factualmente periférico em relação a Lisboa?
Nunca lhe aceitei nem reconheci a periferia...

O que distingue os talentos medianos dos verdadeiros?
Há quem pratique linguagens artísticas que repetem fórmulas já conhecidas, mesmo que sinceramente determinadas por emoções e intenções o mais respeitáveis possível e há quem faça o que não foi feito, ou quem o faça de uma outra maneira que nos permite acrescentar conhecimento ao conhecimento que temos, emoção às emoções que já sentimos, confrontarmo-nos com o que jamais imaginaríamos possível. Não gosto da palavra talento, mas suponho que a sua pergunta procura uma resposta como esta.

É verdade que não tem arte em casa? Nem uma peça?
Sim, é verdade.

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Miguel von Hafe Pérez


"Na política desiludiu-me
a desistência do impossível"

Seis da manhã. Miguel von Hafe, 40 anos, chega a casa da primeira incursão pelo Plano B, recente espaço a cair nas boas graças dos portuenses. É nessa altura que o autor de ‘Anamnese’, compilação inédita de arte contemporânea portuguesa, responde por mail à entrevista combinada por SMS. Com travo a desapontamento político. “Desistir? Talvez.”
[Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada a 31 de Julho na série Farpas do Jornal de Notícias]

Tem em comum com Rui Rio o facto de ambos tocarem bateria e terem frequentado o colégio alemão. É mais o que os une do que o que os separa?
Do supostamente em comum: imagino o nomeado a acompanhar graciosamente a orquestra do James Last. Quando o fiz, movia-me em territórios que na altura se apelidavam de “urbano-depressivos”, o que quer que isso significasse. Quanto ao Colégio Alemão: eu não frequentei; acabei, não sei como. E não tenho necessidade de estar sempre a badalar a minha passagem por lá, como se isso demonstrasse o que quer que seja. Do que nos separa: a vida, os seus modos de uso e a projecção daquilo que entendemos ser expectável por terceiros.

O que faz com que alguém com percurso nas artes seja seduzido pela política?
Estava farto das conversas de café, onde todos opinam, mas ninguém paga a conta.

Acredita na política da mesma forma que acredita na arte?
Claro que não! Na arte seduz-me o jogo tensivo da construção de possíveis impossíveis. Na política desiludiu-me a desistência do impossível e o consequente consolo com o possível.

No seu caso, a arte foi um trampolim para a política? Ou funciona nos dois sentidos?
Trampolim é a minha vida. Com saltos mortais e piruetas mal calculadas, mas sempre com um anjo a aparar as quedas. Se a arte fosse trampolim do que quer que fosse, mais valia dedicar-me à ginástica desportiva. A política, tal como nós a imaginamos, já não existe.

Apesar de figurar na Oposição do actual Executivo, admite que não há quem represente os interesses de quem não votou PSD?
Como costumo explicar à minha filha, a política concretiza-se nos mais pequenos gestos. Assim, quando a tento convencer a não fazer “downloads” de música na internet, faço-o para a alertar para uma necessidade política, isto é, de se respeitarem os produtores culturais e aquilo que eles representam nas sociedades contemporâneas. Nesse sentido, todos, individual e independentemente de ligações mais ou menos circunstanciais aos partidos políticos, exercemos política e, como tal, todos temos responsabilidades acrescidas na formação do quotidiano. O que me impressiona é a assunção de muitos que a política só se produz nos orgãos mais ou menos institucionalizados. E, enquanto tal, a desistência generalizada de intervenção no espaço público.

O exercício cívico, nomeadamente o da vereação, deveria ser pago? As convicções têm um preço?
Claro que sim. A minha babysitter ganha mais do que eu na vereação, e não o faz por convicção.

Esta é a sua primeira experiência política. Será também a última? Já teve vontade de desistir?
Última, de certeza. Desistir, talvez.

Se tivesse sido eleito vereador da Cultura, teria começado por onde?
Por dizer que faço parte dessa ganga. Por dialogar com as instituições e com os criadores no sentido de se encontrarem sinergias criativas, financeiras e de visibilidade. O Porto não precisa de mais estruturas culturais, nem de mais autores...estes têm é de ter plataformas de visibilidade onde se reúnam condições de trabalho e de visibilidade condizentes com o papel que eu penso que a cultura deve deter numa cidade cosmopolita.

O Porto 2001 não passou de um fogo fátuo?
Só para os cegos, ignorantes e ressabiados. Agora que ninguém se esqueça que a programação cultural desse evento teve só cerca de dez por cento do orçamento global...e não gastou nem mais um cêntimo do que o previsto...Sinceramente, acho que se fizeram milagres e a História virá confirmá-lo. A herança continua aí para quem a quiser apadrinhar. Exemplos: o que se fez nos ateliers da Lada, o Cace Cultural do Freixo, para não falar da Casa da Música...

Qual é o seu actual roteiro cultural?
O mundo, entre mortos e vivos, como sempre.

Há quem defenda que a arte contemporânea tem um lado de vigarice evidente, de onde não é possível retirar qualquer ensinamento ou prazer, servindo apenas para alimentar um mercado pseudo-intelectual. Supondo que não se revê nesta afirmação, que argumento usaria para a defender?
Não me defendo. Prefiro defender-me dos que partilham tal opinião.

Como se ensina o grande público a apreciar um litro de sémen congelado como o "White Cube", de João Leonardo, na Universidade do Porto?
Com paciência. Como se ensina alguém a jogar xadrez? Temos de ensinar algumas regras básicas e a partir daí se não sair um jogador de xadrez ninguém levará a mal, com certeza. Agora o que nenhum aprendiz de xadrez (e da arte) pode exigir é sentar-se à mesa e começar imediatamente a jogar.

A renitência por parte de alguns núcleos artísticos nacionais à colecção Berardo é, também, um sinal evidente de inveja?
Talvez. Mas há sectores melhor e pior informados.

Aceitaria ser o curador que se segue de Joe Berardo? Ou gostava de beneficiar só das mesmas condições que têm no CCB?
Não. Sempre tive a sorte de poder criar as minhas próprias condições, ou de encontrar quem as pudesse tolerar, fomentar ou com elas dialogar.

Já viveu em Barcelona e a efervescência das artes plásticas vive-se mais em Lisboa do que no Porto. Não sair da cidade é um acto de resistência?
É. Contudo, esta cidade mantém uma energia telúrica e silenciosa capaz de enfeitiçar os mais incautos, sendo eu um deles. Agora, não posso deixar de sentir o agravamento generalizado das condições económicas da maioria da população, o desleixo e abandono do centro da cidade e a hostilidade relativamente a um sector simbólica e, porque não dizê-lo, economicamente tão vital como o cultural, como uma enorme ferida exposta que começo a ficar farto de lamber.

Na Internet, existe uma árvore genealógica com todos os dados sobre a família von Hafe, desde os antepassados até à última geração, a dos seus filhos. Quem a actualiza? E porquê?
Boa pergunta...devem ser os mormons.

Sendo fã dos Young Marble Giants , está excitado com o regresso deles ao estúdio depois de 27 anos? Ou tem medo de uma desilusão?
Quem ouviu “Colossal Youth” no tempo certo não ficou igual para o resto da vida (ou assim imagino eu um mundo perfeito). Medo, agora? Claro que sim.

Um curador de artes plásticas tem mais capacidade para entender a história do filme de David Lynch "Inland empire" ou fica à nora como os outros?
Terá, porque sinceramente só entendo “Inland Empire” como uma videoinstalação com um loop de mais de três horas...ou seja, aquele filme é uma pintura. Aliás é muito curioso que do lado dos artistas plásticos se tem assistido a um movimento continuado de aproximação à criação cinemática, o que vai tornando este balanço saudavelmente pendular.

Fez agora 40 anos. Já sabe o que é a crise dos 40? Ou acredita mais na canção da ternura do Paco Bandeira?
Crise dos quarenta? Não, obrigado. Paco Bandeira? Não sei quem é...pelo nome deve ser toureiro. Crise tive eu aos treze quando ouvi pela primeira vez o álbum “God Save the Queen” dos Sex Pistols...aí sim, pensei que o “No future” implicava não beber Laranjina C no dia seguinte e, após aprofundada reflexão existencial, fiquei-me, felizmente, pela última.

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