quinta-feira, novembro 13, 2003

Nuno Cardoso

"Não me demito de apoiar o teatro local"
Reunindo invulgar unanimidade à volta do seu trabalho, transformou-se no encenador do momento. O momento, no entanto, dura desde 2001, altura em que encenou "Oresteia", no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, com reclusos daquele estabelecimento. "Desde então, nunca mais consegui ter uma visão agradável do que me rodeia", confessou Nuno Cardoso. Mas a crítica nunca mais o perdeu de vista. Antes disso, o criador era já o discreto director do Auditório Nacional Carlos Alberto, no Porto, cuja reabertura, agora em formato Teatro, está marcada para depois de amanhã."É o único sítio onde os grupos não têm que pagar para fazer teatro. Esse é o problema da cidade".
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 13 de Novembro de 2003)
Foi nomeado director do Auditório Nacional Carlos Alberto (ANCA) em 1998, que fechou para obras em 2000.Ou seja, durante três anos, foi director de um Teatro que, fisicamente, não existia. A reabertura é uma prova dos nove?
Não acho que seja um teste à minha capacidade como director artístico. Fui para o Carlos Alberto com a ideia de conferir novo sentido a uma sala que continuava perdida numa cidade que já tinha novos equipamentos e novas programações. Assumimo-nos como uma unidade de extensão artística do IPAE e, durante esse tempo, tivemos uma programação que, de alguma forma, reenquadrou o ANCA. Desenvolveu-se uma equipa, uma atitude, e desenvolveu-se, face à tutela, uma necessidade de compra do edifício, potenciando-o dentro do universo do teatro de média escala. Ao longo dos últimos três anos, o ANCA nunca cessou de existir e a sua presença, numa espécie de instituição volátil, fez-se sentir com programação extra-muros.
O Auditório passou a ser um Teatro Nacional. O que é que isso significa?
É, apenas, uma questão de nomenclatura. Aquilo que se propõe com o projecto de reconversão do ANCA - agora TeCA -, não acaba segunda-feira. É uma segunda etapa do projecto iniciado em 2000 com o fecho da sala. Com o espaço físico, com conteúdos programáticos, é preciso completar esse ciclo, torná-lo uma força presente, circuito obrigatório para o público, um espaço de cidadania.
O IPAE comprou o ANCA para colmatar a ausência de salas do Porto, criando uma "obrigação" em colaborar com as companhias de teatro independente do Porto. São duas responsabilidades de que se vê agora livre?
Em nenhum momento houve obrigação de apoiar as companhias do Porto, fazendo do TeCA um armazém acrítico de projectos. Havia uma obrigação de abrir o espaço às estruturas de pequena e média produção, cujos projectos artísticos fossem reconhecíveis para poderem criar uma plataforma de sustentabilidade que consolidasse o seu trabalho. Nesse sentido, tendo em conta que o teatro no Porto, nos anos 90, é emergente, a relação é óbvia. É de uma insistência um bocadinho pirrónica insistir nas obrigações do ANCA. Numa cidade deste tamanho, com as salas de espectáculo que tem, incutir unicamente ao Teatro S. João a responsabilidade de activar o teatro, é uma tarefa hercúlea, que nós não podemos cumprir. Dizer que o TeCA se demite de apoiar os grupos do Porto é uma inverdade. Dizer que os grupos do Porto não têm acesso ao TeCA é uma segunda inverdade. Aliás, a programação responde cabalmente a qualquer crítica nesse sentido. O TeCA não pode conter na sua programação tudo o que se faz no Porto. É verdade que há uma retração no tecido de criação devido à falta de espaços, mas esse problema não reside no TeCA.O problema das companhias do Porto é justamente o facto de só existir o Carlos Alberto.Nos outros sítios paga-se para fazer teatro.
Disse que a integração do TeCA no Teatro Nacional São João (TNSJ), representaria "a potenciação de possibilidades que o ANCA prometia e nunca conseguia cumprir". Refere-se a quê?
Refiro-me à possibilidade de apoiar duas estruturas - festivais Co-Lab e Faladura -, que não foram apoiadas por mais ninguém, e cujas franjas em que tocam são fundamentais para uma visão cosmopolita e aberta do que é a arte actualmente. Refiro-me à possibilidade de termos um teatro bem equipado, flexível, para o qual a integração no TNSJ e a ajuda do engenheiro Victor Oliveira e Júlio Cunha, nestes oito meses, foi fundamental. Refiro-me a condições de sustentabilidade económica e de previsibilidade. Refiro-me a ter uma equipa que permite tempo para poder alargar conceitos de programação. Refiro-me à possibilidade de, pela primeira vez, poder desenvolver um trabalho vocacionado para públicos, que é uma vertente fundamental de uma sala de espectáculos.
Um eventual excesso de paternalismo do TNSJ em relação ao TeCA não poderá abafar a sua autonomia?
Fico perplexo. Nós desenvolvemos um trabalho com o TNSJ nos mesmos moldes desde 98. Trabalhamos com duas salas, duas programações diversas, às vezes contraditórias, outras vezes em sinergia.As pessoas que estão preocupadas com o paternalismo do TNSJ em relação ao TeCA, deviam observar o programa. Aí compreenderiam que não há nenhum paternalismo do TNSJ em termos de programação no TeCA. Houve sim, apropriação pelo TeCA de um programa do TNSJ e a sua estilização, e quase escatologia. Refiro-me ao "Dançem". Eu e o Ricardo Pais trabalhamos em colaboração. Há uma intervenção de um na delineação da programação do outro. Partimos da definição clara do que são as duas salas. O TNSJ é uma sala vocacionada para a produção, a criação de espectáculos. O TeCA é uma sala mais pequena vocacionada para o acolhimento de espectáculos.A partir dessas duas matrizes fazemos osmose. O TNSJ tem uma direcção, dois directores artísticos com autonomia absoluta para fazerem a programação. Por que é que estranham que não haja conflitos entre dois directores com processos artísticos e sensibilidades diferentes?
A intervenção de criadores internacionais na cidade é uma das grandes novidades do Teatro Carlos Alberto...
Estamos a desenvolver um conjunto de projectos "Rótula". Há o pressuposto de um projecto trimestral, que tem a ver com a apresentação no TeCA de espectáculos que tenham a ver com um processo artístico contemporâneo, mas que extrapola isso, permitindo que, durante a apresentação, haja contacto com esse projecto pelo público e pelos criadores da cidade através de workshops ou de coproduções entre estruturas estrangeiras e do Porto. Neste momento, estamos em contacto com Jéròme Bel para a apresentação, e estreia universal, da sequela do "The show must go on". No trimestre seguinte, o ANCA poderá ter uma coprodução entre a companhia Instável, do Porto, e a belga "Última vez", de Wim Vandkeybus, para recriar a peça "Les porteuses de mauvaises nouvelles". Haverá colaboração fortíssima entre as duas estruturas, com estágios de bailarinos na Bélgica. A peça poderá ter uma digressão internacional.
O ANCA, que não tinha previsão orçamental no IPAE vê-se, de repente, associado ao TNSJ, com um orçamento de três milhões de euros. Como é gerida essa verba entre as duas salas?
O orçamento é único e gerido com muito cuidado, porque há uma grande distância entre o orçamento alvo e aquele de que dispomos.É óbvio que o cobertor será sempre mais pequeno que o colchão. Mas não se pode cometer o equívoco de confundir o que deveria ser uma política sustentada para a cidade com o papel que um teatro de programação tem. Pode ser o catalisador de uma mudança, mas nunca o ónus de uma política para o país.Com o TeCA passa a haver um número de salas de teatro que não se reflecte na dinâmica cultural da cidade.
Defende uma espécie de intercâmbio entre os directores que permita, por exemplo, atribuir a cada sala uma programação específica?
As fórmulas são imensas e variáveis. Podia, de facto, haver especializações.Mas, até que ponto as outras estruturas da cidade estão escuradas para a sua própria actividade ser continuada? Não pode haver diálogo com estruturas que, infelizmente - e não é por culpa dos seus directores artísticos -, não têm condições de sustentabilidade constantes. Para uma cidade funcionar, tem que haver uma política que infraestruture a vivência de cada uma, com as suas singularidades e os seus pontos de contacto. Se essa política não existe, qualquer vontade posterior não pode existir. Isso cria inactividade ou macrocefalia, o que é mau para os criadores que não conseguem quer distribuir-se pelos sítios, quer ter condições para se sustentar, quer para os públicos, que não conseguem criar um quotidiano em que a vida cultural esteja presente. Isto é tão grave que já se faz sentir no cinema, que abandonou a cidade para se fazer nas suas margens, em ilhas de consumo que são os centros comerciais.A propósito de cinema, o Fantasporto volta ao TeCA?De momento, não. O Fantas é intransponível na vida cultural da cidade. Mas o que é também intransponível é que não temos ainda condições de projecção."Há uma incerteza quanto ao futuro do teatro em Portugal. Mas o importante é fazer um esforço para fugir à politização da criação artística. É dificil, mas é isso que faz crescer o teatro ", afirmou.
Depreendo que não o preocupa o corte à criação teatral da Câmara do Porto?
Não politizar uma actividade é não ser escravo da política. A autarquia devia apoiar os grupos porque eles desempenham uma função importantíssima na cidade. O lazer e a cultura passam pelo mesmo caminho. Mas, para ser sincero, tenho poucos contactos com a política camarária, até porque tenho outro tipo de pressões e outro tipo de trabalho, seja como director ou como criador.Talvez por isso, ainda não tenha um conhecimento pormenorizado da política cultural da câmara. Por outro lado, o traço mais marcante da política cultural do Governo assenta no novo Instituto das Artes (IA), que prevê a intervenção das autarquias nas decisões do apoio à criação. Há um regulamento ambicioso e complexo. Se não houver consciência do perigo, pode não funcionar. Há um enorme tecido de criação artística no Porto e em Lisboa. As pessoas que estão descentradas podem sofrer com isso e o IA tenta compensá-las. Mas, por outro lado, também pode matar a criação nos grandes centros, que é muito válida. É preciso pensar nas condições de circulação desta produção.
Disse que sairia do TeCA quando as coisas estivessem encaminhadas.É agora?
Mantenho o que disse, mas as coisas ainda não estão encaminhadas.Ser uma instituição não é ter as paredes pintadas e um palco e uma programação definida. O TeCA fica completo como instituição quando tiver condições de sustentabilidade e de continuidade, nem que seja por oposição à direcção artística. Estamos, talvez, na última fase desse processo.
Como compatibiliza agora o TeCA com as suas criações?
Com menos sono e mais trabalho. Eu sou - bom ou mau - um criador.É o que eu sei fazer. E, sem isso, não consigo viver. E tenho este objectivo a que me comprometi que é o TeCA. Preciso de cumprir uma coisa e preciso da outra para viver.Entretanto, prepara-se para regressar ao palco como actor, o que já não acontecia desde "A mordaça", em 2000.A peça chama-se "Gretchen" que é uma leitura dramaturgica que o Nuno M. Cardoso faz do Fausto. Eu sou o Fausto. Ainda não decorei o meu papel. Estou enferrujado.
Não é desconfortável ser dirigido por uma pessoa que habitualmente dirige?
No outro dia, estava a jantar com o Mayenburg, que me disse: "Estás no pesadelo de qualquer director , que é ser encenado por um dos seus actores". Para mim é, acima de tudo, uma espécie de banho de humildade e uma espécie de mão na consciência. Ao mesmo tempo é um prazer e um medo muito grande. Não sei se vou fazer um bom trabalho.
Perfil
Idade: 32 anos
Livro: Volume de poesia completa de T.S. Elliot
Filme: "Rocco e seus irmãos", de Luchino Visconti
Cidade: Berlim, Bangkok
Defeito: Teimosia
Qualidade: Memória
Medo: Aviões
Saudade: Férias de Verão da escola primária
Música: "Valsa triste", de Sibelius
Comida: Cozido à Portuguesa
Confissões

Ao Cabo Teatro é um privilégio
A produção das peças de Nuno Cardoso conhece um único nome, Ao Cabo Teatro. O criador garante que "não é exclusivo de ninguém", mas reconhece que é "um grande privilégio" ter encontrado uma pessoa que acredita nele - Hélder Sousa. "É bom ter 32 anos e ter já encontrado uma pessoa com quem se concebe trabalhar daqui a dez anos."
Fascínio pelo contemporâneo
Encenou de um só fôlego três textos escuros - "Purificados", de Sarah Kane, "Parasitas", de Marius von Mayenburg e "Valparaíso", de Don Delillo. Em todos há um fio de dor. "Desde 'Oresteia' que não consigo ter uma visão do que me rodeia, e de mim mesmo, propriamente agradável", confessa. Mas a verdade é que a escrita contemporânea fascina o criador. "Não tanto pelo que ela tem de universal, mas pelo que de conjuntural e imediato possui.E por mais questionável que seja, perturba-me, perturba os meus actores, e acho que também perturba o público." Nuno Cardoso parou. Não foi por acaso. Diz que ainda anda à procura de uma comédia.
O magistral protegido da crítica
Assíduo espectador das criações de Nuno Cardoso, o ensaista Eduardo Prado Coelho catalogou a encenação de "Purificados" de "magistral". O encenador não se deixa iludir, mas não é hipócrita. Agradece."Claro que fico contente". E esclarece: "Sempre achei que entrei nisto para correr a maratona e não os 100 metros." A meta está à vista.

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