sexta-feira, março 10, 2006

Rodrigo Guedes de Carvalho

(Foto: Bruno Castanheira)


"Jornalismo passa ao lado do essencial da vida"

Não escreve para que lhe descubram as entranhas, mas reconhece que os seus livros dirão mais de si do que o jornalismo. Não tem a preocupação de obedecer às tendências e teme o dia em que a obra seguinte não esteja à altura da anterior. Rodrigo Guedes de Carvalho, “afinal, é uma pessoa sensível”, diz de si, com ironia.O jornalista é diferente do escritor, é diferente do argumentista. “Coisa ruim”, o filme que escreveu, foi visto por 15.230 espectadores na semana de estreia. “A casa quieta”, romance publicado há meio ano e já na 6.ª edição, foi um dos cinco escolhidos pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca para representar Portugal na Bienal de S.Paulo. O próximo livro, “A mulher em branco”, é apresentado no Porto, a 4 Abril. O seu campeonato é, afinal, o da literatura.


(Entrevista de Helena Teixeira da Silva parcialmente publicada no Jornal de Notícias a 11 de Março de 2006)

Teve a pretensão de inaugurar uma nova etapa no cinema português ao escrever o argumento de “Coisa Ruim”, um filme de terror?
Fizemos história ao ser o primeiro filme português a inaugurar o Fantasporto e a estar em competição em longa-metragem. Filmes são longas-metragens; literatura são romances. Contos e curtas não contam. Não é uma verdade absoluta – é o meu entendimento. Mas não houve qualquer pretensão na feitura ou na montagem do filme de inaugurar o que quer que fosse. Foi uma feliz coincidência.

O centro do filme é uma casa assombrada. É o purgatório?
Pode ser, sobretudo porque trabalho sempre a partir das personagens: quem são, de onde vêm, qual é a sua relação. No filme interessava-me a implosão daquela família. Enquanto está em Lisboa vive um quotidiano cheio de não-ditos, de fantasmas. Provavelmente teria continuado assim se não se tivesse deslocado para aquela casa, na aldeia. Os acontecimentos dão um estado de enervamento e de stress tal que começam a dizer o que realmente sentem.

Porque é que essa aldeia não é identificada?
Porque não é relevante. E porque o filme não tem, de facto, um local. Aquela aldeia é feita de pedacinhos de aldeias da zona. A maior parte dos sítios já estão contaminados por antenas parabólicas e cabos de alta tensão. Relevante é o facto de se passar num interior profundo. Pode ser onde se quiser, neste caso, é tudo na zona de Torrozelo. A casa sobretudo. Não deve haver nenhum português, por mais citadino que seja, que não tenha uma tia ou uma avó, um padrinho de regiões semelhantes. É um imaginário que está presente em todos os portugueses, provavelmente nos mais velhos com mais força e com mais referência, mas os miúdos novos, de uma forma ou de outra, também já vão conhecendo esses locais.

As histórias que o inspiraram foram-lhe contadas como tendo efectivamente acontecido ou já como lendas?
Algumas, poucas, como tendo efectivamente acontecido; outras provêm de leituras. Sou um apaixonado pelo tema. Desde criança que li os mais variados livros, desde os mais naifs sobre lendas religiosas de Portugal ou "Velhas e novas andanças do diabo em Portugal" ou livros que normalmente não são romances - são ensaios ou compilações de lendas. E todo esse universo foi ficando em mim e foi-me aparecendo no momento da escrita. Foi um processo um pouco inconsciente.

Não sendo crente, o imaginário popular merece-lhe respeito?
Sou não crente do ponto de vista estritamente religioso. Não professo nenhuma religião. Sou crente em dados históricos como, por exemplo, a existência de Jesus Cristo, mas não mais do que isso. A existência de um deus omnipresente e todo poderoso não tem cabimento para mim. Em relação a tudo o que seja lenda ou superstição sou céptico. Tenho tendência a racionalizar as coisas. É um mecanismo de defesa. Racionalizamos para não nos permitirmos ter medo. No entanto, perante tantos acontecimentos, alguns profusamente documentados ou testemunhados, acho que deve haver mais coisas entre o céu e a terra do que aquelas que nós conseguimos explicar.

Mas coloca-se sempre no papel do observador, como estando de fora, como não fazendo parte daquilo…
Sim, não fazendo parte daquilo e tentando não me deixar atemorizar por isso. Penso que todos já tivemos situações de medo absolutamente irracional, uma inquietude que não sabemos de onde vem: é o vento, é um animal que passou no restolho. Se é isso, não há razão para ter medo, e no entanto, naquele momento, nós temo-lo. Era um pouco essa sensação que se quis transportar para o filme.

Definiu um público alvo?
Nunca o defino. Primeiro, porque podemos não atingir todo o público-alvo; segundo, porque estaríamos a excluir parte do público. Escrevo na esperança de que toda a gente aprecie, sabendo que isso é impossível. Mas há uma coisa que está a verificar-se e que nos enche de orgulho: na generalidade tivemos boa crítica e estamos a ter muito público. Os dados do primeiro fim-de-semana são muitíssimo prometedores.

Terá a ver também com uma cobertura mediática invulgar?
Sou quem sou e o ano passado lancei um livro que não teve metade deste foguetório.

Também porque não quis...
É verdade. No caso do “Coisa ruim”, o meu nome pode ter ajudado, mas não foi determinante. Gosto da minha posição de mero argumentista. A grande alavanca da promoção deve-se à abertura oficial do Fantasporto e ao facto de o Paulo Branco ter gostado muito do filme e ter apostado na promoção, o que não costuma fazer. O problema dos objectos é que se não os publicitarmos, as pessoas não sabem que existem.

A cultura merecia ter mais expressão nos media?
Completamente! Sou um lutador dentro da SIC para que a cultura tenha mais cobertura mediática. E nós já devemos ser os que lhe prestamos maior atenção.

É um espectador assíduo de cinema português?
Não totalmente assíduo, mas ultimamente vi praticamente tudo. Houve filmes da última década que me escaparam.

Viu os filmes nomeados para os Oscars?
Só vi o Crash.

Dois filmes nomeados para os Oscars levantaram questões essenciais sobre o jornalismo. Entre a vampirização dos afectos [“Capote”] e a incondicional vigilância da verdade [”Boa noite e boa sorte”] onde se situa?
No cinema interessa-me pouco a caução do real. Mas, por natureza, o jornalista é um vampiro, embora não tanto quanto o escritor, que está quase sempre a levitar do seu corpo. Tudo é matéria, mesmo as coisas mais pessoais. O jornalismo tem um drama: passa ao lado do essencial da vida. Toca, como um mosquito, coisas e vidas às vezes graves e segue para a próxima reportagem. Não podemos sentir-nos culpados. Não podemos embrenhar-nos na vida de todas as pessoas que tocamos.

Mas é-lhe permitida emoção, piscar o olho ao espectador?
Não só é permitida como é necessária. Não sou um absoluto fundamentalista da objectividade, até porque, enquanto valor absoluto, não existe. Pelo menos, não é identificável. Como é que nós dizemos que fulano é objectivo e outro não é? Obviamente, o jornalista – passe o lugar comum – é também um ser humano e isso é uma vantagem para a sua profissão, porque no acto de comunicar, as pessoas vão sentir que é uma pessoa como elas que assistiu aquilo e que lhes está a comunicar isso, não foi uma máquina, um robot. Não pode é utilizar as emoções que retirou da reportagem para com isso manietar ou manipular o espectador. Tem que saber usar isso. Tem que lhe ser dada a oportunidade de ser uma pessoa que sente, que se emociona, que não passa incólume pelas coisas.

"Boa noite e boa sorte" retrata sobretudo um período turbulento de pressões. Já as sentiu?
De uma forma geral, acho que não. Portugal não é um bom exemplo para isso. Portugal é tão pequenos em tudo que até nas pressões o somos. Não posso falar por outros colegas ou empresas, mas nunca senti pressão em qualquer sentido: forçar notícia porque interessa ou ocultar dados que fossem de alguma forma comprometedores. Dar-me-ia muito mal com esse tipo de pressão. Não digo o que faria porque nenhum de nós sabe. Seria fácil dizer que batia a porta e ia para debaixo da ponte. Mas na realidade, não sei. E nunca senti pressões, nem na RTP nem na SIC. Aliás, o Pinto Balsemão, com alguns defeitos que possa ter, tem uma tradição, reconhecida por todos, de ser uma pessoa que respeita muito os seus jornalistas.
Os seus livros resultam da adaptação de episódios reais fornecidos pelo jornalismo?
Não preciso de acontecimentos reais para ficcionar. Até agora não o fiz, mas não me choca quem o faz. O escritor não deve ter barreiras que não sejam as do seu bom senso. Tudo serve, desde que seja feito com qualidade. Não pode haver barreiras na arte.

No seu caso, a informação funciona como elemento inibidor?
A informação com que lido não me tem fornecido matéria interessante. No meu próximo livro há uma criança que desaparece. Isso não quer dizer que o escrevi porque tenho dado muitas notícias sobre crianças que desaparecem. Mas como a minha escrita não tem nada de fantasioso – é sempre sobre pessoas e acontecimentos reais –, é normal que algumas situações sejam contaminadas por notícias que apresento.

O livro chama-se “A mulher em branco”. Qual é o fio condutor?
É a história de um divórcio violento. Interessam-me as relações humanas. É sobre isso que gosto de escrever – não sei se é sobre isso que continuarei a escrever. No fim-de-semana em que o homem tem o filho à sua guarda, vai passear com a criança e ela desaparece em circunstâncias que depois se perceberá. O homem, que já tem uma relação difícil com a mulher, tem que informá-la que perdeu o filho de ambos. É o sentimento de culpa elevado à décima casa. A mulher, com o choque, fica amnésica. Uma amnésia retrógrada que se caracteriza pelo facto de sermos capazes de recordar a infância, mas não o passado recente. Com a amnésia, a mulher não se lembra sequer que tem um filho, logo não o pode chorar.

Daí o título...
Sim. Foi desafiante trabalhar o que se passa na cabeça de uma mulher que não tem nada na cabeça.

Fez pesquisa sobre a matéria?
Não, não pergunto nada a ninguém. Estou permanentemente a fazer pesquisa no meu dia-a-dia, em silêncio. E quando escrevo estou completamente a marimbar-me para as tendências, senão teria escrito um romance histórico. E estava garantido. Interessa-me a relação orgânica que tenho com a minha escrita, explorar cada vez melhor a palavra. Vejo a literatura como a escultura: temos um pedaço de granito e começamos a buscar o que está lá por baixo. É uma luta comigo: tentar ser melhor. E como tenho a vantagem de não viver da literatura, escuso de saber o que o mercado quer.

O livro será apresentado em Abril, no Porto, com a mesma discrição de “A casa quieta”?
Está prevista uma apresentação normalíssima. Convidarei sobretudo amigos, porque é um momento de cumplicidades mais do que de fogo de artifício e espavento. Logo se vê quem o apresenta, terá que ser uma pessoa que me é próxima, quer do ponto de vista pessoal quer literário. Ainda não será desta vez que haverá posters gigantes à porta da Fnac.

Fica a ideia de que se protege no jornalismo na proporção em que se expõe na literatura...
Nenhum deles sou eu, nem o escritor nem o jornalista. No jornalismo represento a redacção e as notícias produzidas nesse dia. Cumpro regras básicas: dou voz aos dois lados da notícia, trato com seriedade uns assuntos, permito-me leveza noutros. Basta uma pausa ou um sorriso e percebe-se que tenho uma visão irónica sobre aquilo. Mas não é o meu jornal, é o jornal da SIC. Na escrita, parece que finalmente está a conhecer-se as entranhas da pessoa – afinal é uma pessoa sensível [risos]. Mas a escrita é também a representação de algo. Mesmo que aquilo que escrevo pareça quente e arrancado num repente, o processo de escrita é um mecanismo frio para provocar essa sensação. Se os livros são meus, estará lá muito de mim, mas não quer dizer que tenham que conhecer-me através das minhas personagens.

Não me refiro a literatura autobiográfica. O facto de escrever sobre sangue não quer dizer que esteja a sangrar, mas escrever sobre sangue dirá uma coisa diferente do que diria se escrevesse sobre água.
Sim, nesse sentido, sou muito mais eu na escrita, embora não tenha partido com essa necessidade de me dar a conhecer. Escrevo porque me dá prazer. É natural que diga muito de mim, quer nas escolhas dos temas, quer nos desenhos das personagens. Está lá muito do que amo e muito do que odeio.

Deposita nos livros o que despreza na sua vida?
Não trabalho com essa missão, mas às vezes acontece. No novo romance há um personagem que representa tudo o que me repugna. É como se estivesse a libertar-me de algo que não quero para a minha vida, que não gostaria de ser. Há quem diga que se escrevo aquela cena é porque ela está dentro de mim, não entendo. Por exemplo, em “A casa quieta” escrever sobre a incomunicabilidade entre as pessoas ajudou-me a melhorar a minha vida. Não posso escrever sobre o drama que é perdermos tempo a não dizermos que gostamos uns dos outros se não o praticar na minha vida.

O encanto da escrita reflecte algum desencanto com o jornalismo?
Não, até porque comecei a escrever antes de ser jornalista. O jornalismo, de alguma forma, passa ao lado do essencial da vida. Pela sua natureza, volatilidade, rapidez. Interessam-me coisas onde possa estacionar, pensar mais. A arte, sendo ficção, aproxima-nos mais do que é essencial na vida do que a realidade nua e crua do jornalismo. E o que procuramos na arte são emoções.

A arte dá-nos mais da vida do que a própria vida?
Acho que sim. Porque a arte é imortal. Vai sobreviver-nos. Faz parte das nossas ambições mais básicas. É por isso que lemos livros, vamos ao cinema, apreciamos escultura. Precisamos disso. Ao contrário, há muitas coisas da vida real sem as quais viveríamos bem. Precisamos desse procurar do belo - no limite, é nesse sentido que os artistas trabalham, nem que seja um belo horrível. Nós temos, felizmente, dentro de nós, esse desejo de abstracção.

Questiona o seu talento enquanto escritor?
Todos os dias e cada vez mais. Os elogios são muito bons, mas têm o condão de elevar a fasquia. Há a exigência de que o próximo trabalho seja melhor do que o anterior, e isso é uma angústia. Qual será o meu tecto? Provavelmente o trabalho mais recente de alguém não é o melhor. Angustia-me a expressão: “Desta vez, desiludiu”.

“O problema não é não correspondermos às nossas expectativas; é não correspondermos às expectativas dos outros” escreveu em “A casa quieta”. É isto?
É a desconstrução daquela frase cor-de-rosa dos livros de auto-ajuda que querem sempre convencer as pessoas a não se importarem com os outros. É a mesma coisa que insistir em dizer às pessoas que se sentem feias – aliás, o meu próximo argumento parte daí – que isso não interessa porque são bonitas por dentro. À pessoa isso vale de pouco porque sabe que ser feia numa sociedade cada vez mais exigente em termos estéticos, é agrilhoante. A expectativa dos outros em relação a nós é o que mete mais medo e é o que mais nos agrada quando conseguimos fazer algo bom.

Esse argumento que referiu é o “Entre os dedos”?
Não, é outro. O “Entre os dedos" já está feito, e já estamos a trabalhar sobre ele. Agora estou a escrever outro argumento, que é sobre a forma como uma mulher se vê. Ela vê-se de uma forma diferente daquela que os outros a vêem. Depois, se isto está na cabeça dela ou não... terá que ver o filme.

Essa superação constante nos seus livros passa muito pelo apuramento da forma. É mais importante do que o conteúdo?
A forma é o que realmente nos toca. No jornalismo – e eu costumo dizer sempre isto aos estagiários -, o sensacionalismo nunca está no conteúdo, está sempre na forma. Pode fazer-se uma belíssima peça jornalística sobre um homicídio ou sobre pedofilia. Depende do talento do jornalista. Na literatura, dois escritores podem pegar na mesma história e um tocar-nos e outro não. Tocar, revolver, emocionar está na forma como se escreve. É isso que define um escritor com E grande. Há agora uma corrente de escritores que acha que o importante é a historieta, e que as palavras são mecanismos para se contar a história. Não, não, não. Discordo em absoluto. Uma palavra fora do sítio é completamente diferente. Se eu tiver uma personagem a responder numa discussão: “Não” ou ”Não, não, não” é completamente diferente. As palavras pesam, foram inventadas e têm todas significados diferentes. Há uma lógica para isso. Gosto de caracterizar as personagens pela forma. Alguns capítulos são propositadamente mais pausados, mais clássicos, mais com ponto final e percebe-se que as personagens são serenas. Há outros que não, há um corrido porque quero que a personagem provoque isso. E faço-o através da forma.

E a forma condiciona o ritmo de leitura...
Obrigo a ler de uma forma, guio, pretendo que leiam assim. Podia ter escrito aquela manhã com os quatro filhos (em "A casa quieta") de forma diferente e não teria dado aquela sensação de sufoco.

Chegou a esse registo apenas pela influência de António Lobo Antunes, com quem é invariavelmente comparado?
Não. É a minha forma. A comparação não me chateia – é um elogio; não é um insulto. Como escritor é dos melhores de sempre e tenho grande ternura por ele como pessoa, e sei que ele também tem por mim. Mas penso que é redutor considerarem que escrevo à Lobo Antunes porque, nesta altura, já provei que valho um bocadinho mais do que isso. E isto não é dizer que quero retirar o nome dele, pelo contrário. Quero muito que o Lobo Antunes goste do que escrevo, como quero que pessoas, outras, que gosto e considero e não são escritores, continuem a apreciar-me. Porque são o meu público, são pessoas que considero intelectualmente e por quem tenho afectividade. Preciso que gostem se não era um bocadinho angustiante. Mas, como eu já disse, vai haver um dia em que ele não vai gostar. E isso não pode, de maneira nenhuma, definir a minha carreira. Tenho uma relação muito salutar com o nome e a sombra do Lobo Antunes. Não tenho problemas nenhuns que digam, que tenho influências dele. Tenho, é verdade. Todos temos influências das pessoas que apreciamos.

Assusta-o ser confundido só com mais uma pessoa mediática a publicar livros?
Assusta. Os meus livros têm uma escrita diferente, por exemplo, do José Rodrigues dos Santos ou do Miguel Sousa Tavares. Não é melhor nem pior - é diferente. O público acabará por não ser o mesmo também. O meu medo – e isto tem que ficar claro -, é haver pessoas que podem nem sequer pegar no meu livro por ter sido eu a escrever. Por não gostarem de mim como jornalista, ou por pensarem que sou só mais um da televisão a tentar apanhar a onda. Com este preconceito podem não me ler. Há outro risco: terá havido muitas pessoas que terão comprado o livro por ser meu. “Aposto que conta aqui os podres da sic”, disse-me uma senhora na Feira do Livro. Acham que tenho que escrever um livro que se aproxime do jornalismo. E depois desiludem-se porque não estão à espera deste tipo de escrita. Rejeitam-no. A minha escrita pode ficar num limbo em relação aos potenciais leitores. Não sei o que é pior.

Qual é o balanço entre perdas e ganhos?
Apesar de tudo, para o tipo de leitores que gostava de ter, continuo a achar que é mais uma perda do que um ganho. Mas isso não me preocupa.

Suponho que também não preocupe somar edições...
Não escrevo a pensar no público, mas escrevo para o público. Parece uma contradição, mas não é. Para o livro soar verdadeiro às pessoas, ele tem que sair de mim e eu tenho que estar preocupado sobretudo com a minha escrita. A partir do momento em que é publicado, quero que chegue ao maior número de pessoas possível. Em termos de D. Quixote vendeu bastante bem. Não se aproxima nada das cifras de José Rodrigues dos Santos ou de Miguel Sousa Tavares. Mas mais importante do que isso, mais do que a quantidade, foi o feed back que recebi de alguns críticos e de alguns leitores. As pessoas sentiram o livro, tiveram uma experiência emocional muito forte e esperam que eu escreva outro. Eu nunca conseguiria dizer: “Claro que vai ser um sucesso”, porque não me cabe dizê-lo. Cabe-me trabalhar uma coisa que me dê prazer e esperar que ela dê prazer às pessoas.

Se lhe perguntar se é escritor provavelmente dir-me-á que não...
Dir-lhe-ia que sou um escritor e um jornalista porque tenho conseguido conciliar as coisas. Mas eu tenho tanto respeito pela palavra escritor que não quero ser eu a considerar-me. Felizmente, há já muita gente que o faz. Gosto tanto de literatura, de livros, que tenho muita parcimónia em utilizar essa expressão. Adoro ler e escrever e espero que a qualidade da minha escrita faça com que me considerem um escritor. Mas nunca serei eu a utilizar essa denominação.

Mas o seu campeonato é o da literatura...
Sim, é o de querer ser considerado escritor.

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