sexta-feira, janeiro 26, 2007

Joe Berardo


(Foto: José António Domingues)
Joe Berardo nasceu na Madeira, há 62 anos. Foi no arquipélago onde viveu até aos dez anos – antes de emigrar para a África do Sul –, que começou a coleccionar postais e caixas de fósforos. “Coleccionar é preservar o futuro”, afirma. À arte chegaria mais tarde. Queria possuir a maior colecção de arte contemporânea do século XX. E, desde o início, sabia que haveria de a depositar em Lisboa, num museu.
Ignora as críticas de quem defende que a Colecção Berardo permanecerá em Portugal a um preço exorbitante para o Estado e garante que só aceitou a parceria para impulsionar a cultura do país. “As pessoas pensam que fiz um grande negócio porque não fazem ideia do que é trabalhar com dinheiros públicos”, afirma Joe Berardo, empresário madeirense para quem foi propositadamente criada uma Fundação, que irá gerir o Museu com o seu nome no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Em 2016, quando cessar o período de concessão das suas obras de arte, o investidor estará disponível para reembolsar o Estado. Ao JN explica todos os contornos do maior negócio de arte alguma vez realizado em Portugal. E sublinha: “O Estado só não compra a Colecção se for estúpido”.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 26 de Janeiro de 2007)

O acordo que assinou em Abril com o Estado [criou a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo] para a permanência da sua Colecção em Portugal continua a levantar reservas devido às exigências que impôs. Admite que o protocolo possa ser visto como sendo desiquilibrado?
Nunca ouvi críticas. As pessoas, pelo menos, à minha frente, dão-me os parabéns por ter decidido manter aqui a Colecção. Recebi milhares de cartas na altura em que houve a possibilidade de a retirar do país, a dizer que não poderia fazer isso.

Entende que retribui na mesma medida em que recebe do Estado, que lhe disponibilizou o Centro Cultural de Belém (CCB), que atribuiu ao Museu o nome Berardo, que criou uma Fundação para o gerir e aceitou que fosse o presidente de tudo?
Não é bem assim. Infelizmente, tive que ceder muito às exigências do primeiro-Ministro. Eu queria abrir o Museu no fim de 2006 e eles tinham compromissos assumidos até Fevereiro deste ano. Mas esse nem foi o principal problema. O problema é que José Sócrates exigiu que eu desse a opção de compra da Colecção ao Estado por uma avaliação feita agora e cujo permanecerá inalterável durante dez anos. Enquanto a inflação estiver em 2,5%, a assinatura do protocolo vai custar-me, por ano, 7,5 milhões de euros. Isto é uma cedência pouco comum. Quando se dá uma opção de compra a alguém, a pessoa tem que fazer um depósito inicial e o objecto vai sendo valorizado.

Mas já tomou a decisão...
Mesmo tendo cedido, sei que o futuro não vai ser fácil: há pessoas que queriam ter influência sobre o que faço e há outras que ficam com dor de cotovelo por não estarem envolvidas no projecto. Mas sempre quis que a Colecção ficasse num museu em Lisboa. Se a quisesse deixar em França ou em Miami já o teria feito. Também a poderia vender – tenho um preço mínimo –, mas acabaria com a cultura e seria o pior dia da minha vida. Orgulho-me de nunca ter vendido uma obra de arte. Aliás, há um engano, que é o mais famoso da minha ignorância, que ocorreu em 1969, em Joanesburgo...

...não identificou a litografia da Mona Lisa...
Isso. Foi a minha mulher que me chamou a atenção e disse que o original estava no_Louvre, em Paris. Ainda o tenho.

Voltando à decisão...
Escrevi uma carta à ministra da Cultura, dizendo que aceito, mas com uma condição: o orçamento para o Museu, já aprovado pelo Conselho de Administração, tem que estar assinado no devido tempo. Não coloco lá a Colecção correndo o risco de ver o orçamento alterado.

A avaliação feita pela leiloeira Christie’s é razoável?
O que quer que diga? Só por um quadro ofereceram-me 48 milhões de euros. A colecção tem mais de 800.

Mas tem noção de que o valor atribuído à Colecção – 316 milhões de euros –, equivale a 120% do orçamento de Estado canalizado para a cultura no ano passado?
Não tenho nada a ver com isso. Ao fim de dez anos, o Estado não é obrigado a comprar.

Mas, nessa altura, o Estado já terá investido, pelo menos, cinco milhões de euros no Museu [500 mil euros por ano para aquisição de obras]...
Mas eu vou investir a mesma verba. Se, em 2016, o Estado não quiser comprar as obras pagas metade-metade, devolverei o dinheiro. Ou posso querer doar a Colecção, mas isso já é outra história. Toda a gente pensa que 500 mil euros é muito dinheiro em arte. Não é. Um milhão de euros não é nada. O Chiado diz que só tem 20 mil euros para aquisição, mas isso é um problema deles.

Parece querer dizer que a Colecção ficará em Portugal quase a custo zero...
Exactamente. Se o Estado não exercer o direito de compra deve ser estúpido, porque o dinheiro naquela altura vai valer muito mais. As pessoas pensam que isto, para mim, é um grande negócio porque não fazem ideia do que é trabalhar com dinheiros públicos. É uma grande chatice.
O facto de passar a monopolizar as salas todas de exposição do CCB também é um investimento do Estado...
A Colecção já esteve em mais de 600 museus no mundo todo. A minha ideia é nunca ter uma exposição mais de seis meses. E nem assim a colecção será toda mostrada. Já começamos tarde a mostrar o que o povo quer ver. Serralves, no Porto, está a trabalhar muito bem; a Gulbenkian, em Lisboa, nunca ninguém acreditou que iria estar aberta tantos anos; a exposição de Amadeo de Souza-Cardoso teve mais de cem mil pessoas em dois meses; na Madeira, onde tenho um museu há 14 anos, recebi, no ano passado, 583 mil estudantes. As pessoas estão acordar para a cultura.

Nunca vendeu um quadro, mas está na disposição de vender a Colecção inteira...
Não é vender assim, porque a Colecção foi feita com a intenção de ficar em Portugal, num museu de arte contemporânea que ainda não tínhamos. Para que quero o Governo? Podia ter feito o Museu sozinho. Mas não está certo. Um museu de longo termo tem que ser partilhado com todos. Todos temos que sentir-nos donos daquilo.

Todos temos que pagar...
Não é pagar; é partilhar. Se queremos um Portugal melhor temos que investir seriamente na cultura. Eu sou peanuts.

Qual é a mais-valia de Jean-François Chougnet para o ter escolhido como director artístico do Museu Berardo?
Fui muito pressionado para escolher. Havia pessoas muito boas. Mas Chougnet esteve comigo no Brasil, em 2001, a organizar uma exposição sobre o Surrealismo e conhece bem a Colecção. Adora Portugal, fala bem português, conhece o país de raiz desde 1974. Foi consultor do ministro da cultura francês na altura em que a cultura mais se desenvolveu em França. Conhece os museus do mundo todo, e as pessoas adoram-no.

Mas há quem diga que parece uma forma de assegurar a saída da Colecção para França daqui a dez anos, caso o Estado português não a venha a adquirir...
Isso é estúpido. Não precisava dele para levar a colecção para França. Já estava lá se eu quisesse. Falei com vários ministros; eles iam fazer um museu só para mim. Pelo contrário: acho que ele vai ajudar-me a manter aqui a Colecção.
"Porto perdeu a valia económica"
Joe Berardo inaugura hoje, na galeria do JN, no Porto, uma exposição de fotografias inéditas do escultor romeno Constantin Brancusi [1876-1957] juntamente com cerca de 30 artistas. Entre os quais: Helena Almeida, Salvador Dalí, Marcel Duchamp. “Não tenho nenhuma peça de Brancusi, mas tenho um conjunto de fotografias muito raras”, afirma, seguro de que a mostra terá sucesso. “É uma exposição um bocadinho intelectual, mas o Porto está mais bem dimensionado para receber as artes do que qualquer outra parte do país”.

A exposição que inaugura, hoje, na Galeria do JN, no Porto, assinala o regresso da Colecção Berardo à cidade. Lamenta que a Fundação de Serralves não tenha ficado com o espólio quando o propos, no início dos anos 90?
Nunca houve negociações para a Colecção ficar em Serralves. Sou um dos fundadores da Fundação: quando me pedem obras, empresto. Estive lá o ano passado com a exposição de Art Déco, que foi apresentada com dignidade e uma das mais visitadas. Mas nunca quis que a Colecção ficasse no Porto, apesar de o edifício do Siza ser maravilhoso.

As fotografias de Brancusi têm a particularidade de serem mostradas em Portugal pela primeira vez...
É verdade. São fotografias muito raras das suas esculturas, tiradas pelo próprio no estúdio. Há fotografias fora do estúdio, mas as que existem lá de dentro são todas só dele, porque nunca permitiu que alguém as fotografasse. Infelizmente, não tenho nenhuma das suas peças, mas tive oportunidade de comprar esta colecção. Apresentá-la no Porto é a realização de um sonho, porque nunca tinha exposto, individualmente, uma parte da Colecção Berardo na cidade. É uma mostra um bocadinho intelectual. Mas acho que vai ter sucesso. O Porto está mais bem dimensionado para receber arte do que qualquer outra parte do país.

Ainda compra arte no Porto?
Já comprei mais. O Porto está a perder uma valia económica substancial. O trabalho que era feito na cidade está a ir para regiões com uma dinâmica económica diferente. É isso que acontece às galerias que estão a fugir para Lisboa. O Porto tem que dar um grande passo para recuperar a riqueza que teve no passado, a todos os níveis.

As últimas aquisições que fez são de artistas portugueses: Ângelo de Sousa, Rui Chafes, Alberto Carneiro, Fernanda Fragateiro. Está a colmatar uma falha?
Não. A Colecção obedece a uma lógica. Primeiro fizemos a colecção internacional; agora vamos aos portugueses. Quando faço uma exposição não quero só estrangeiros; quero também portugueses, mas se acordo com os comissários. Fernando Lemos, por exemplo, que tenho em exposição na Madeira, disse que é a primeira vez que expõe em Portugal ao lado dos melhores artistas do mundo. Esteve perto do Picasso ou de Duchamp. Está lá porque é o melhor fotógrafo do século passado.

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