segunda-feira, julho 09, 2007

Miguel Veiga


"Dou várias vezes a mão à palmatória"


Não gosta de mandar. Por isso, nunca foi político. Parece-se com um, de vez em quando. Teve inúmeras solicitações ministeriais; recusou sempre. Em nome da liberdade. Se a tentação maior do exercício era o poder de mudar alguma coisa, ele exerceu-o através da advocacia. De fila, de barra, do cidadão comum. É homem desejante – da literatura, da arte, da música –, e gosta da palavra desejo – a “única que não mente”.


Miguel Veiga, um dos fundadores do PSD, tem 70 anos; podia ter 18. Ontem, foi homenageado na presença 150 amigos e de Cavaco Silva, a quem se rendeu, pela freguesia da Foz onde viveu sempre. Por ter sido o que continua a ser: homem de cultura, distinto jurista e cidadão do Porto. A homenagem foi o pretexto para a entrevista.

[Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no JN a 2 de Junho de 2007]

É a segunda homenagem que a cidade lhe presta em menos de dois meses. Sente que entrou naquela fase de colher frutos pelo seu percurso?
Não. Entendo que numa época em que os valores das convicções e, sobretudo, da cidadania são postos em causa, há necessidade de pegar nesses velhos – irrelevantes como eu –, que não ficam na História, mas que passam a ser uma espécie de referência, não direi arqueológica, mas viva, melancólica, nostálgica. De qualquer coisa que faz falta às pessoas. Uma coisa que lhes faz falta é o reconhecimento da sua própria identidade. E a identidade é a proximidade: do vizinho, do bairro, da tribo, do clã, do clube. Das convicções, sejam religiosas, políticas ou sociais. Isso faz falta porque há uma perda do sentido da comunidade. Portanto, de vez em quando, pesca-se à linha – é preciso ter lucidez crítica - um sujeito que foi limpinho através da sua vida, coerente com as suas convicções, que nunca mudou, nem se vendeu, que bem ou mal, agiu sempre de acordo com aquilo que pensava. Que, mesmo na política, só defendeu causas da cidadania. E é curioso porque, nas últimas eleições francesas, entre as Esquerda e a Direita, cada um punha como primeiro patamar dos seus programas essa tentativa de regresso a uma determinada identidade e a uma comunidade que, obviamente, já não é a de há 50 anos, porque o mundo mudou. Mas tanto Segolène como Sarkozy sentiam que isso podia mover os franceses. E nesta lição democrática da França, que foi votar a 80 e tal por cento, está um regresso a um sentimento de pertença identitária e comunitária.

Encara a distinção, apenas, como essa necessidade de se criarem referências?
Fui pescado à linha; podia ter sido qualquer outra pessoa. Mas não me vejo como referência; sou essencialmente um ser desejante. A liberdade pela qual me tenho sempre batido não é, apenas, um direito; é um desejo vital de relacionamento. A minha fidelidade é às convicções, à terra, às raízes e, sobretudo, à minha identidade portuense. Cheguei a dizer esta enormidade, mas que eu sinto: “Basta-me ser portuense para ser português”. Socorrendo-me da luminosidade da Sophia: “O Porto é a pátria dentro da pátria”. É este sentimento enraizado, uma pele imemorial que me veste por dentro e sem a qual não posso viver sob a pena de ficar completamente descarnado.

O Porto é o lugar da sua felicidade?
(Silêncio) De uma felicidade possível. Não sou homem de verdades absolutas. Aliás, a verdade, hoje em dia, deixou de ser um conceito hegemónico. Quando você entrou eu estava a escrever sobre isso. «Criado num ambiente liberal e republicano, desde os 18 anos que me fui manifestando e intervindo publicamente contra a ditadura, a favor da democracia, das liberdades e ainda da social-democracia. Atrevo-me a reproduzir o que recentemente me escreveu Manuel Alegre: “Lembro-me da primeira vez que te vi em Coimbra, nos idos 1956. Eras então o único social democrata, o primeiro que conheci em carne e osso. Tu dirás, já te estou a ouvir, e o último. Talvez o último da fila, por apagado, mas parece-me que actualmente pertenço a uma espécie em extinção, o que, lamento dizê-lo, me ensombra e entristece neste meu fim de tarde, por isso, timbrado de uma certa melancolia. Mas se pensarmos que o horizonte da nossa sociedade já não é a revolução prometaica do proletariado, portadora da sociedade sem classes, mas o estabelecimento profundo da democracia, essa convenção de uma fragilidade magnífica, magnífica, magnífica, perpetuamente ameaçada, nunca acabada, e se os cidadãos e os intelectuais têm alguma função orgânica, será a de obreiros dessa democracia possível, regime de liberdade limitada, de igualdade aproximada e de fraternidade intermitente.» É esta possibilidade que eu acredito ser, também, a felicidade. Não acredito nas cartilhas da salvação da história, nem na salvação das cartilhas dogmáticas ou das gramáticas de obediência, da salvação individual através da felicidade. De uma felicidade absoluta. A insustentável leveza do ser tem sempre nas nossas vidas, como contraponto, aquilo que eu chamo o inelutável peso de viver. Portanto, eu sou feliz à minha maneira.

Filho único, sem descendentes. Casado há mais de 20 anos com a mulher que diz ter capacidade de não o cercear. Diz sempre que é mimado e que traz a “infância pela mão”. Fica a impressão de que tem uma personalidade imutável e que são os outros que têm de se moldar, de ceder, de adaptar-se…
Não é verdade. Transijo muito, moldo-me muito às pessoas. Até tenho mudado muito. Mudo todos os dias. Por exemplo, tenho idades diferentes ao longo de 24 horas: posso ter 18 ou 90 anos. Não sou um tipo hirto, que impõe a sua personalidade. Sou um homem maleável. Uma das características que os meus amigos me atribuem, é que dou várias vezes a mão à palmatória. Também porque tenho grandes exaltações, grandes insubmissões, alguns excessos. Para além de impertinências e até de incontinências. Mas eles reconhecem que sou o primeiro a fazê-lo, quando considero que cometi erros, e felizmente essa é uma das minhas qualidades, sou um homem que ainda comete erros. A coisa que mais detesto no mundo é daquele que nunca comete erros. É o paradigma da pessoa que não gosto: os infalíveis, os puritanos, os que contêm em si auto-suficientemente todas as verdades do mundo. Enfim, todos aqueles que não usam, mas abusam do poder. Sobretudo, daqueles que muitas vezes escrevem mal, porque tenho grande respeito pela escrita. Hoje em dia, a maior parte das pessoas deixou de ter convicções; passou a ter opiniões. E escreve sobre tudo e sobre nada e permite-se dizer os maiores disparates. E a comunicação social, toda ela, é o vínculo disso. Antes os animais falavam agora eles escrevem. (risos). Gosto da ironia.

Numa das suas pegas com José Saramago, ele respondeu que “quanto mais velho, mais livre se sente, sobretudo para ser radical”. No seu caso, parece que sempre usufruiu dessa liberdade e que sempre tudo lhe foi permitido, independentemente da idade…
Dizer que sempre me permitiram tudo é um eufemismo. Tive sempre grande vigor, grande audácia nesse aspecto. Grande ousadia em afirmar o uso e o exercício da liberdade. A liberdade é a coisa mais perigosa que há, mas também a mais segura que temos. Fui educado na liberdade – a minha liberdade é heterodoxa -; os meus maître-à-penser – Albert Camus, Raymond Aron, Churchill e, em Portugal, Eduardo Lourenço – foram sempre cultores da liberdade. Comecei a ler Eduardo Lourenço, aos 19 anos, em Coimbra. E aqueles dois volumes de “Heterodoxias” nunca mais saíram da minha mesa de cabeceira. Fui formado num tempo em que havia maître-à-penser. Esses intelectuais, cultos e criativos, que eram os intermediários entre a casta sábia e o grande público, desapareceram porque a necessidade de conceito, da elaboração da ideia, rima muito mal com a urgência contemporânea. Hoje, quer-se conhecer e saber mais pensando menos. E conhece-se e sabe-se cada vez mais pensando menos. Portanto, a cultura variou. Perante as suas ausências, eu e o Balsemão criámos um maître-à-penser imaginário, que é Jubert. Carteamo-nos com ele e citamo-lo várias vezes nas conversas. O que aparentemente é motivo de divertissement, é uma recriação que traduz em nós uma coisa muito séria. Cito-o constantemente, o que faz arrepiar o irmão que não tive, Artur Santos Silva, que tem uma irrepreensível compostura vitoriana. Quando me vê publicamente a citá-lo abre os queixos e só os fecha no dia seguinte. As nossas necessidades ou carências podem levar-nos a esses extremos.

De onde retira prazer, hoje?
Se eu lhe dissesse não podia publicar. (risos) Os meus vícios são todos virtuosos, ou melhor, as minhas virtudes são todas viciosas. [Lê o discurso que escreveu para a homenagem] “Um dos meus prazeres é a literatura que, no dizer pessoano, é a prova de que a vida não chega. As letras são a minha respiração, o livro é o tempo abolido. Creio na pintura, nessa poesia que se vê, pede-me o desejo que a veja, nessa fonte que explode de legibilidade, porque exactamente o não diz. Creio na música, que cabe aos céus, e é a alma da geometria que dá forma ao silêncio, que é o único prazer sensual sem vício, sabendo que sem ela a vida seria um irremediável erro. E como crente e praticante unicamente nessas esferas, coabito familiarmente com livros, pinturas e discos. Cultivamo-nos amorosamente com aquela razão gulosa, com aquela sensualidade do entendimento que leva àquela incrível doçura dos sentidos, aos indizíveis sentimentos da emoção que derramam e irrompem e fazem acender as luzes da razão. Creio até que a ética é uma estética. À minha modesta e menos do que mediana estatura – tenho apenas 1, 72 de altura – sou tão somente um buscador do mundo, movido por uma infinita curiosidade. Esse é o meu único infinito. Sofro de um enorme apetite, diria mesmo quase de gula pela vida e não recuo, nem recuso, quando ironicamente me tratam por bon vivant. E porque não? Lembro-me do dito de Óscar Wilde: «Eu tenho os gostos mais simples do mundo. Contento-me com o melhor.» E gosto de gostar, o que me sustenta a alegria de viver na sua insustentável leveza de ser, em contraponto com o seu insustentável peso de viver. Desamparado de deuses, acredito naqueles que acreditam. Creio no amor, que é o caminho mais curto de um homem a outro. Fazer humor é transformar a vida numa larga e tolerante benevolência, quase que próxima da caridade, essa isca que encobre as emoções, que responde sem responder, que não fere e diverte. O único remédio que desata os nervos do mundo sem o adormecer, que lhe dá a liberdade sem o enlouquecer e entrega nas mãos dos homens, sem esmagá-los, o peso do seu próprio destino”. É isto que me dá prazer.

Afirmou há alguns anos numa entrevista que “o mais tentador na política é a ideia de poder mudar alguma coisa, porque o intelectual limita-se a interpretar o mundo”. Nunca tendo sido propriamente político, em que lado desta afirmação se situa?
Tento mudar o mundo na estrita medida em que me coloco perante ele. Não sou um político. Pareço-me com um político de vez em quando. Advogo causas. Continuo a ser advogado. E causas que entendo que sejam da cidadania. Nunca me atraiu o poder do político. Não gosto de mandar. Há-de compreender que tendo sido um dos 13 fundadores de um partido, que depois se mostrou ser o maior partido e o vencedor, tenham acabado por bater à minha porta várias vezes. Para ministro disto e daquilo. Recusei sempre. Até ao fim da minha vida vou querer manter a minha liberdade, a minha autonomia e a minha independência. Portanto, em termos práticos, não largo o meu escritório. É aí que me sinto bem. Não só porque me perco um pouco nos jogos de poder, mas também porque eles me aborrecem. Não faço coisas que me aborrecem. Não sou capaz de me violentar a mim próprio. Tenho a maior admiração pelo exercício da política e pelos que a exercem. É nobre, dignificante. Mas eu não pertenço a essa espécie. Não é da minha natureza. Eu podia ter tido cargos fantásticos que depois degeneravam, como tantos outros, em cargos muitíssimo mais fantásticos, mesmo em termos remuneratórios. Mas nunca tive uma acção, um dossier de nenhum governo do meu partido ou de alguém com proeminência no meu partido. Sou um advogado de fila, de barra, do cidadão comum. Sou suficientemente orgulhoso para não ter protectores, mas sou suficientemente obscuro para não ter protegidos. Situo-me naquela faixa do sujeito que não tem senhor nem escravo. E só posso fazer isso através de uma certa independência, autonomia. Advogo o que quero, posso recusar o que me apetece, não tenho contas a prestar a ninguém. Tenho a liberdade de dizer o que apetece, quando me apetece. Tenho dito e, às vezes, tem-me custado bem caro. Essa é a minha natureza desde sempre.

Como é que um sportiguista comemora a Taça de Portugal no Porto?
O Sporting deu-me uma alegria subsidiária. Uma Taça de Portugal não é alegria. O que eu queria era a Liga. Não comemorei. Comemorei, na semana anterior, curiosamente, até ao intervalo, quando o FCP estava empatado 1-1. Passou-me pela cabeça – o desejo tem destas coisas – que era possível um empate e que o Sporting entretanto ganharia o campeonato. Fiquei tão nervoso, tão nervoso que bebi p’raí oito sangrias. É o que há. É uma coisa curiosa: os meus amigos são todos portistas e ferranhos. E nunca suportaram que eu seja sportinguista. Os mais benevolentes, quando olham para mim e falam do meu sportinguismo, dizem: “No melhor pano cai a nódoa”. Mas é uma coisa muito curiosa, porque há uma história por trás disso. Quando eu tinha quatro anos, comecei a brincar com os meninos meus vizinhos: um de um lado e outro do outro. Fui o terceiro a chegar e um já era do Porto e outro do Benfica. E como nós jogávamos aos futebóis, etc, já em termos de competição, eu fiquei no Sporting. A partir daí, ao longo da vida, o sportinguismo arreigou-se a mim. Depois, o Sporting empolou o meu ego porque apanhei a época dos cinco violinos em que o Sporting foi campeão durante muitos anos. Lia uma revista de que os meus pais me davam a assinatura, que era a Stadium. Vibrava com aquilo e com todo o sportinguismo. De tal maneira eu era agarrado que um dia os meus pais, como prenda de Natal, deram-me um equipamento à Sporting, com chuteiras e tudo. Passei a dormir de chuteiras e equipamento, o que depois levava a reprimendas porque a minha mãe via isso e obrigava-me a pôr o pijama. Mas eu não queria. Até a dormir e a sonhar era sportinguista. Depois, o primeiro jogo de futebol a que eu fui, ainda na Rua da Constituição, foi um Sporting-Porto num Domingo. O José Régio, que era muito amigo do meu pai, estava em Vila de Conde, veio almoçar e disse que ia ao jogo. E eu comecei a pôr-me a jeito. Ele viu-me tão interessado que disse que levava o miúdo. Está a ver a minha felicidade. Mas depois perdeu-me. Apanhei um susto, caramba! Portanto, o sportinguismo é uma fatalidade de que eu gosto.

Mas não ficou contente, por pouco que seja, quando o Porto ganhou o campeonato?
É outra coisa subsidiária. Quando há o confronto, isso não! Não consigo! Suponho que não é uma peculiaridade minha, nem uma extravagância. O Clube nunca mais se abandona. E também não se explica – é como as mulheres.

II

Não está satisfeito com o rumo da cidade, mas iliba Rui Rio de responsabilidades. Admite que, na esfera da cultura, não se revê nas posições tomadas pelo autarca, mas ressalva que há diferenças entre visão e gestão cultural. Miguel Veiga diz que a cidade não tem um líder forte, mas defende Rui Rio.

Foi mandatário da candidatura de Rui Rio nas últimas eleições autárquicas. Está satisfeito com o rumo da cidade nos últimos seis anos?
Não estou satisfeito. Mas embora não esteja satisfeito, não quer dizer que esteja insatisfeito com a gestão de Rui Rio. São duas coisas completamente diferentes. Reconheço-lhe o mérito de ter travado o rumo catastrófico, criminoso da cidade, que são os edifícios que nela foram construídos, nos lugares mais incríveis, na especulação mais desenfreada, descaracterizando a sua fisionomia identitária, as pedras da cidade. Lembro que, há cinco anos, a principal representante da União Europeia, a senhora que dirige todas as coisas da arquitectura, num jantar comigo, aqui no Porto, disse: «Não sei se se apercebeu que em toda a Península Ibérica, o Porto é a cidade mais europeia que existe.» Quem mandava nesta cidade eram os construtores através de uma gestão autárquica mais do que duvidosa. Rui Rio acabou com as influências, com os poderes e, sobretudo, com as grandes especulações dos construtores. É por isso que Rui Rio tem no país uma determinada auréola: foi a primeira vez que, num município, construtores deixaram de ter o braço comprido.

Em relação à cultura, estará nos antípodas de Rui Rio. Separa esferas ou há conflito?
(longo silêncio) Fui sempre apoiante de Rui Rio, designadamente naquela sua primeira candidatura, que era arriscadíssima, e que estava destinada a perder, mas que ele ganhou. Arrisquei pelo apreço em que o tinha, pela coragem que ele tinha demonstrado e, sobretudo, porque era um correligionário das minhas convicções políticas e de algumas formas de encararmos a vida. Fomos dos poucos - contam-se pelos dedos das mãos - que participámos na primeira campanha para a liberalização do aborto. No nosso meio partidário era considerado de excepção. É nessa esfera que me encontro com ele. (silêncio) Na esfera da cultura, tenho que admitir que temos diferenças. E diferenças de formação, de apetites, de necessidades e até de modos de conviver com ela. É uma realidade. Eu – e não estou a por medalhas ao pescoço – sou uma pessoa extremamente seduzida, preocupada e inquietada pelas criações culturais. Mas eu não tenho poder. Portanto, é uma cultura de uso próprio, doméstico. Ele é um homem público, tem outras responsabilidades. E as suas preocupações estão muito mais voltadas, para não dizer exclusivamente voltadas para as realizações sociais. Sempre o disse; nunca o escondeu. Disse que primeiro tinha que tratar das desigualdades, dos deserdados, dos excluídos, dos injustiçados. Toda a sua política autárquica tem sido orientada muito mais nessa vertente. E quando eu digo “muito mais”, talvez se possa dizer muitíssimo mais.

Essa política está a ser cumprida?
Está. E aí - sem embargo da amizade, da admiração que tenho por Rui Rio -, não me encontro com ele. Não me encontro porque aí, o meu mundo pessoal - tenho que admitir - é diferente do dele. Não quer dizer que o meu seja melhor. Cada um na sua esfera. Eu acho que a cultura é fundamental. Aliás, sempre defendi, durante dezenas e dezenas de anos, que o verdadeiro Estado de direito é um Estado de cultura. Como considero que o principal motor de uma República é a escola. A escola é o começo da cultura. Sem este binómio, sem esta articulação entre escola, cultura e cidadania, o Estado de direito desmorona-se como um baralho de cartas.

Faz parte desse desencontro o facto de um Executivo democraticamente eleito decidir alienar o Teatro Municipal com base no argumento de que seriam necessárias receitas privadas, sendo que depois manteve o espaço fechado durante quatro meses?
Aí, defendi-o. O que queria manter-se, e que nunca ninguém disse, era uma privatização da associação que estava lá [Culturporto] em favor de duas ou três companhias que representam umas para as outras. Quando se ocupa um espaço público, sem público, está a fazer-se uma privatização. Fez muito bem em dizer: «Pára a dança!» A resistência dele aos chamados ‘ocupantes’ foi a resposta a uma privatização espúria daqueles que supostamente eram contra as privatizações.

Não considera fundamental que haja companhias para todos os públicos, nomeadamente para os nichos de mercado?
Sou a favor dos grupos marginais que não tem grandes públicos. Têm direito à existência; não têm é o direito a fazer ocupações de espaços públicos, que são de todos, para os privatizarem a seu próprio favor.

Mas não é justamente isso que representa a concessão do espaço a Filipe La Féria?
Não sou a favor de uma concessão, apenas, a espectáculos de entretimento, de carácter populista e com sucesso. Entendo que o Rivoli é um espaço cultural que deve ser devidamente adequado e destinado a um pluralismo cultural e que abranja todas as escalas, cada uma com o seu público próprio. Tem que haver grande prudência e equilíbrio em futuras adjudicações do espaço. Mas vejo isto de fora. Posso ter uma visão cultural, mas não tenho que fazer a gestão económica do espaço. Aí, tenho que me remeter um pouco ao critério de quem está a gerir os dinheiros da autarquia que, no fundo, são os nossos dinheiros. E aí, é possível que Rui Rio tenha alguma razão.

É com a estratégia de reabilitação urbana seguida por este Executivo que a Baixa poderá voltar a ser habitada?
Faço parte do conselho consultivo da Sociedade de Reabilitação Urbana. Pela primeira vez, foi feito um levantamento exaustivo das habitações, das suas degradações, dos seus habitantes, das suas idades, das suas profissões, posses, etc. A Baixa, se ainda não está morta, está completamente moribunda. E tem um comércio miserável que sobrevive à custa apenas dos familiares. Pretendemos ressalvar uma determinada identidade arquitectónica do Porto. Mas não é possível requalificar sem investimentos privados.

O centro histórico foi classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. A Câmara ignorou o décimo aniversário por não ter o que celebrar?
Não havia nada para celebrar. A Rua Mouzinho da Silveira tem uma desocupação de cerca de 90%. E também, segundo me dizem, porque não havia recursos. Os poucos que há são canalisados para os bairros sociais.

Tem sido desbaratado o esforço feito por executivos anteriores para transformar o Porto numa cidade mais cosmopolita, mais europeia?
E quanto gastaram? Além disso, nunca vi grandes intentos nesse sentido. A prova é o Porto 2001.

Sente que a herança da Capital Europeia da Cultura foi, também, desperdiçada?
Pesada herança! Foi um conjunto de obras catastróficas. E algumas até criminosas porque destruíram a fisionomia identitária do Porto. Em 2001, o que resultou bem foi a Casa da Música e veja-se o orçamento. De resto, tudo se esvaneceu._Ficou a destruição de jardins, a implantação daquele monstro no Castelo do Queijo, onde se gastou mais de um milhão de contos, e cuja única solução é a implosão.

Os Aliados não são, também, a destruição de um jardim?
Não. Eu também tive fortes dúvidas, que me foram explicadas pelos meus amigos Siza Vieira e Souto Moura. No início, fiquei com um certo receio, não sobre o alargamento das vias, mas sobretudo em relação ao jardim. Disseram-me que o metro tinha que sair por ali. O metro que é fundamental. Implicava uma obra no centro. Fiquei esclarecido. A fonte é a única coisa em relação à qual mantenho algumas reservas. Até porque disseram que a fonte era inspirada numa fonte de Paris, que é uma beleza. Quanto vi esta, fiquei um bocado reticente…

A eterna questão: o Porto perdeu poder, capacidade de gerar líderes, para o país e para a região?
Não é só o Porto, mas o Porto mais do que os outros, é verdade. O Porto, já o disse, é um prestígio à procura de um poder. Não tem poder porque falta organização colectiva das suas elites comerciais, industriais, culturais, intelectuais, que hoje estão absolutamente disperas.

É irreversível?
Não acredito nas irreversibilidades das situações. Agora, acho que a cidade necessitava de uma liderança. Não de uma liderança no sentido aristocratizante, mas reconheço que nesses projectos colectivos tem que haver uma força impulsionadora e centrifugadora das diversas energias que estão à sua volta. E, realmente, o Porto não tem tido nenhum líder assim, mas isto há muitos, muitos anos.


III

Sente que traiu Mário Soares, de quem sempre elogiou a coragem, quando recusou apoiá-lo nas eleições presidenciais?
Fui muito amigo e tenho uma admiração sem limites, que depois se fez acompanhar dos afectos, pela personalidade do doutor Mário Soares, que considero o animal político mais poderoso que encontrei em toda a minha vida. E com o quem, para além de uma economia, de uma política, de uma ética, etc, tenho uma visão semelhante sobre o mundo. Mas apercebi-me que ele não devia candidatar-se porque já estava acima das nuvens. O país já era diferente. As coisas vão mudando. O mundo tinha mudado. Entendi que ele devia continuar a exercer a sua magistratura de influência, não na Presidência da República, onde já tinha exercido, e bem, o seu cargo, mas noutros domínios, como está a fazer agora. Porque ele não parou. Ele está em todas, e bem. E com uma coragem, um ânimo, uma alegria e uma insatisfação que um sujeito de 40 anos não tem. Mas entendi, e disse-lho - ele consultou-me -, que se arriscava muito fortemente a ter um insucesso e que ele não o merecia. E que a coragem dele devia ser acompanhada de lucidez. Pedi-lhe que aplicasse, no seu caso, uma coisa que ele tinha como ninguém: o faro político. Eu só dizia: «Não vai merecer o que lhe vai acontecer». E aquilo estava ali, em frente dos meus olhos. As pessoas que estão acima das nuvens devem ficar lá. Ele olhou para mim e disse que os filhos e os netos já lhe tinham dito o mesmo. Não insisti em demovê-lo, porque vi que o problema já estava resolvido dentro dele.

Apoiou Cavaco Silva por considerar que era o político mais bem posicionado para receber presidir ao país ou por mera escolha política?
Não apoiei o professor Cavaco Silva por razões afectivas (lembro que fui o único anti-cavaquista no seu consulado) e disse-lho sempre claramente, nunca o escondi, nunca escolhi ou moldei palavras. Mas fiz um exame de consciência e disse que o ia apoiar por uma questão de consciência baseada na racionalidade política. Entendi, pela visão que ele tinha do país, e no estado em que o país estava, que ele reunia as condições necessárias de que a Presidência da República necessitava. Até porque - isso sempre lhe reconheci -, ele era sensível e cumpria com fidelidade a divisa de Leonardo da Vinci: um obstinado rigor. Não era um rigor qualquer. Entendi que, neste momento, ele era a personalidade adequada. Eu podia ter ficar calado, até nem votar, ou votar nele secretamente. Até para não ferir o doutor Mário Soares, de quem era amigo com grande intimidade. Mas entendi, em consciência, e como cidadão, e por causa desse obstinado rigor, e do seu notável profissionalismo, que era dele que o país precisava. Perguntei-lhe que tipo de magistratura iria exercer. Disse-me que preza a estabilidade e que o seu conceito não era andar a provocar guerrilhas: é cooperação institucional estratégica. Está a cumprir fielmente. Hoje, sou adepto dele. O facto de ele ter decidido deslocar-se a Nevogilde para se juntar à minha tribo de índios é uma prova do seu afecto. Sou sensível à generosidade. Ele é, também, um homem de afectos, sentimentos, emoções.

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