quinta-feira, março 18, 2004

José Manuel Mendes


"Escrevo só o que não consigo não escrever"

É, desde sempre, alguém vinculado a um imperativo de intervenção crítica pela liberdade e pela democracia. José Manuel Mendes, presidente da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), defende o nascimento de uma outra instituição, "mais densa e mais ágil", concordando que existem hoje "formas crescentes de censura". Lidera a Associação Portuguesa de Escritores (APE) e preconiza o regresso das bolsas de criação literária. Editou profusamente, mas lamenta ter publicado o primeiro livro aos 13 anos. "Fiquei muito exposto enquanto autor em formação". Hoje, tem no computador milhares de escritos, que provavelmente apagará. Numa rara entrevista, José Manuel Mendes analisa liberdade, democracia, literatura e a sua obra.

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 18 de Outubro de 2004)

Acusam-no de ser vaidoso, mas, liderando estruturas como a APE e a AACS, tornou-se cada vez mais discreto...
Não devo ser juiz em causa própria. Desde miúdo que oiço dizer que a minha marca é a arrogância. Mais tarde, a partir dos anos de Coimbra, adquiri o estatuto de aristocrata pelo comportamento, altaneiro, ufano. Haverá, provavelmente, um fundo de verdade nisso? Um certo à vontade no espaço público, um à -vontade feito de rigor e responsabilidade, bem mais do que poderá julgar-se, nunca levou a que eu prescindisse da apelatividade e do convívio a par de um efeito distanciador afeiçoado pelo actor que, em termos profissionais, nunca fui. O facto é que vamos sendo o que de nós fazem. Não vivo em estado de autodeslumbramento. Bem pelo contrário, o pensamento crítico, também em relação em mim, é o ar de que careço para viver.

Mas doseia as aparições?
Muito. Tem a ver com o modo de estar no espaço público. Não seria nunca tiranizado pela luz dos media. Escolho, de uma forma geral, os momentos de aparecer, e entendo claramente que 'less is more'. Sou o oposto de quem tem vocação permanente para se pôr perto de um microfone, diante de uma câmara de televisão ou máquina de fotografia. E, no entanto, considero que, por razões de ordem múltipla, há circunstâncias em que se justifica que eu tenha uma palavra. Sem que isto signifique qualquer pretensão de ter "a" palavra.

Essa discrição aplica-se também aos livros, que publica cada vez menos. A maturidade tem-lhe roubado a vontade de dizer coisas senão a si próprio?
É uma questão terrível. Antes de mais porque me apeteceu, em determinado contexto, o refúgio num silêncio irrevelável. Cumpri, e não tenho publicado porque não quero. Destruí imensa coisa.Tenho no computador, provavelmente, milhares de escritos que um dia apagarei. Disso tudo há-de ficar um mínimo que ainda me apetece assumir. Mas depois, porque não é incontroversa, bem pelo contrário, a minha relação com isso a que se chama o universo literário, escrevo apenas o que não consigo não escrever. Guardo; quando é necessário publico. O Mundo não perde nada com o facto de eu continuar ausente.

Publica poesia desde os 13 anos. Já tinha noção, nessa altura, de que se tornaria escritor?
Nessas alturas nunca se pensa que se vai ser um modesto escritor, pensa-se sempre que se vai ser um grande escritor. Lia devoradoramente, e escrevia com a ideia de que um dia seria um poeta e um ficcionista de mérito. Escrevi sempre muito, desde os oito anos que durante um longo período da minha vida escrevia todos os dias. A maturidade começou muito cedo sob certos aspectos, e ainda não chegou sob muitos outros, o que é bom. Quando publiquei os meus primeiros livros, já numa fase adulta - cometi o erro de começar a editar cedíssimo, o que não se perdoa - vivíamos no tempo da ditadura e a minha voz era a de alguém vinculado a um imperativo de intervenção crítica pela liberdade e pela democracia. Daí que os livros fossem muito marcados por uma arte que não temia a emergência da História, e que passou esteticamente pelo que ainda era o movimento neo-realista e por alguns dos autores cimeiros desse movimento. Com a chegada dos anos 80, a partir sobretudo do livro "O limiar da terra", não só esteticamente, mas também de outros pontos de vista, a minha escrita mudou e aquilo que vim fazendo passou a ser muito diverso. Começo a escrever menos nos últimos cinco anos, o que tem a ver com a devastação profunda que foi e é a morte de minha mãe. E não creio que volte a essa escrita incontinente de outros anos, a não ser no espaço do meu diário íntimo, que claramente não é destinado a publicação. Mesmo que aproveite fragmentos.

Editar cedo é crescer à vista de toda a gente. Arrepende-se?
Exactamente. Sim e não. Fui muito aplaudido, estimulado, considerado, premiado, mas, simultaneamente, dada a extrema vulnerabilidade do que publiquei nesses anos, exposto, enquanto autor em formação. Resta saber se os anos da chamada maturidade corresponderam, ou não, ao que havia de, eventualmente, promissor nos primeiros sinais.

Há 25 anos fez uma crítica violentíssima à APE, acusando- a de não ter estruturas dinâmicas fora de Lisboa, de não reformar projectos. Por ironia, é agora presidente da Associação. Dissolveu o que criticava?
É muito bom que eu ouça essa crítica de viva voz. Mas creio que a realidade é distinta, seja pela realização de um programa de actividades exigente, apesar do contexto financeiro não permitir ousa- dias maiores, seja na preocupação de afeiçoar a Associação ao país, seja ainda na preocupação de manter diálogo intenso com os sócios, disponibizando-lhes uma revista de prestígio, onde podem publicar textos, ouvindo-os. Não quero com isto dizer que tenha conseguido solucionar todos os problemas que a Associação enfrenta, mas a realidade é distinta daquela que criticava há 25 anos.

Que peso real tem a APE para os escritores?
Isso deve ser aferido objectivamente. Alguns dos prémios literários mais relevantes que existem no país, é fácil ver como eles se repercutem junto dos leitores. Um livro que ganhe, por exemplo, o Grande Prémio de Romance e Novela multiplica as suas edições de uma forma significativa, como não acontece com nenhum outro prémio. Por outro lado, a Associação participa em numerosas iniciativas culturais, de debate, e também na composição dos júris de vários prémios. O que é, por um lado, garantia de isenção, transparência e de qualidade das pessoas para o exercício dessas funções, e, por outro lado, um sinal de que se trabalha na perspectiva de fazer, do ponto institucional da literatura, não uma fortaleza sitiada, mas um espaço aberto a toda a crítica e a um intenso dialogismo.

Está na APE desde 92. Porque é que as bolsas literárias, que sempre defendeu, foram, entretanto, suspensas?
Foram suspensas para requacionação, tendo em vista a produção de um outro regulamento. O dr. Rui Pereira, director do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, criou uma comissão, a que eu presidi, para lhe propor um articulado que ele pudesse apreciar e levar à consideração hierárquica no interior do ministério. O grupo trabalhou de forma intensa e entregou o texto final, que está para decisão, e do meu ponto de vista os resultados a que foi possível chegar apontam para a continuidade, na linha que foi aberta no tempo do ministro Carrilho.

Que memória tem do seu percurso académico, em Coimbra, em pleno Maio de 68?
Foi um tempo quase mágico, apesar da ditadura. Participei nos momentos mais intensos de uma cidade sublevada, profundamente livre. Tenho dito isto muitas vezes, sendo, muitas vezes, incompreendido. Livre no exacto sentido de que nenhuma polícia nos tolhia o pensamento, nenhum movimento era cerceável pela circunstância de estarmos o tempo que fosse necessário na cadeia. Uma cidade que saía da sua rotina e se inssuracionava em nome de um ideal de justiça, liberdade e solidariedade, com flores e balões na rua, a predicar o que viria a ser o 25 de Abril. Era a refulgência do perdurável, do definitivo nos nossos próprios percursos individuais e na história do país.

Sentia que eram uma elite?
A esta distância, a resposta só pode ser afirmativa.

Tem saudades das lutas pelas grandes causas?
Não tenho saudades porque prossigo disponível e diligente. Mas percebo que a pergunta contém um outro universo de referência, que é o deste tempo desprovido de grandes aventuras e desafios profundos poder não ser estimulante. É preciso absorver os clamores que chegam, não ser indiferente ao grito do Mundo - para usar um verso do Édouard Glissant. E não dei-xar de assumir causas pessoais e colectivas, com o que elas implicam. Ou seja, não me demitir da minha capacidade de intervir. Continuando a intervir sempre, permaneço fiel a todas as causas pelas quais me bati e pronto para as que vierem.

Jorge Sampaio sugeriu recentemente que deveria haver um órgão que substituísse a Alta Autoridade para a Comunicação Social, por via da sua alegada ineficácia. A AACC é uma estrutura sem capacidade reguladora real?
A substituição da AACS por uma nova entidade reguladora é uma opção do poder político. Não devo, na presente circunstância, comentar as razões que surgem alegadas para a extinção do órgão que existe, nem os projectos que subjazem a vários dos discursos que vamos ouvindo. Na certeza de que se não integra na ordem democrática um organismo com vocação censória ou de mera representação dos grupos de interesses, importará certamente que, sobre os escombros da AACS, se faça nascer, com reforço de meios humanos e técnicos, uma instituição que não delapide o adquirido, se revele mais densa e ágil e corresponda à necessidade de uma regulação efectiva, não sucumbida à lógica omnívora da concentração ilegítima de empresas, garanta sem hesitações nem tibiezas a liberdade de imprensa, assegure os direitos de personalidade e o reforço de institutos como o direito de resposta. A justa avaliação do que tem sido a AACS está por fazer.

Que leitura lhe merece a crescente dependência dos media face aos grupos económicos, à luz do caso Marcelo?
Existem, de facto, formas de censura há muito rastreadas e hoje crescentes. A um tal fenómeno, urge responder, nos planos legislativo e do sancionamento já preconizado por normas concretas, de modo clarividente. Estou de inteiro acordo com as observações a este respeito produzidas por Jorge Sampaio. O "caso Marcelo", sobre o qual me não pronunciarei em concreto por motivos que radicam nas funções que desempenho, tornou inadiáveis algumas actuações.

Apesar de ter sido um deputado activo nos anos 80, recusa sempre a falar sobre política. Que ideologia defenderia para a criação de um novo partido?
Não vou criar qualquer partido. Se o fizesse, partindo de uma ideia de que se acham exauridos os que hoje existem, seria necessariamente um que se não colasse a uma estratégia em torno da mera morigeração dos efeitos mais nefastos do capitalismo selvagem e buscasse, sob o primado da liberdade e da democracia sem emasculações, uma alternativa global, consistente, eficaz, deveras nova - na análise, nos conteúdos e nas formas da sua intervenção.

Testemunhou o Maio de 68, o Abril de 74... Recorda-se de alguma vez o país ter atravessado semelhante desnorte?
Não. Desde o período da revolução, não. Há mais do que mil razões para se viver com alguma inquietação diante do quotidiano avolumado de sinais de degradação da democracia, seja por uma diminuição da sua dimensão participativa, seja por um esbater do modelo representativo, seja sobretudo por todos os sinais que nos dão conta de um evidente desacerto institucional que só pode deixar a sociedade perplexa, indignada, uma vez que a indiferença será sempre o pior de todos os meios de reacção. Não apenas a ausência de horizontes fagueiros, no que se prende com a vida social, com a organização do quotidiano das pessoas. Também o descalabro a que se chegou nos diferentes domínios: a justiça, a saúde, a escola...

E na Comunicação Social...
O panorama não é alentador. Suponho que chegou o momento do 'turning point' e, para isso, é indispensável que não haja sobreposição de nenhuma lógica de compromissos corporativos, seja em relação ao vigor dos princípios e à clarividência dos métodos de intervenção, seja no abandono de princípios nucleares de defesa da liberdade de imprensa, hoje tão ameaçada.

Perfil

Nunca mais voltou a Luanda, "a cidade quase imemorial, de acasos irrepetíveis" onde nasceu em 1948, e que deixou aos 11 anos." A morte do pai fez com que atravessássemos o Atlântico". Estaciona em Braga. Coimbra vem depois, com a Universidade, onde escolhe Direito. José Manuel Mendes é um poeta. Impenetrável. "Dizem que sou arrogante". Desvaloriza. Os ideais apresentam-lhe o Partido Comunista, pelo qual é deputado à Assembleia da República, na década de 80. Mário Soares reconhece-lhe nobreza. Em 95, distingue-o como Grande Oficial da Ordem de Mérito. Publica mais de 30 livros; está traduzido em vários países. A insuperável morte da mãe abranda-lhe o ritmo. "Escrevo apenas o que não consigo não escrever". Só ele sabe o que deposita todos os dias no diário "e que não se destina a publicação".

Idade 56 anos
Livro "Blood Meridien", Cormac McCarthy
Filme "Casque d'or", de Jacques Bécker e "A eternidade e um dia", de Theo Angelopoulos
Qualidade O que de mim procuro deixar em quanto faço
Defeito A minha obstinada teimosia
Cidade Paris, Londres, Madrid, Praga, Roma, Barcelona. E não sei quantas mais.
Saudade Minha mãe. E Serge Reggiani.
Paixão Memória e acontecer
Desgosto Ter perdido demasiado do miúdo e do jovem que fui.

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