domingo, março 28, 2004

José Manuel Osório/ Luís Osório

"A minha metaé viver até ao Euro 2004"

É conhecido desde os anos 70 pela sua carreira de fadista e produtor de espectáculos. Mas, por sórdida ironia, o maior reconhecimento público está ligado ao percurso pessoal. José Manuel Osório, infectado com o vírus HIV em 1984, continua, vinte anos depois, saudável. Tão saudável quanto possível. "Os problemas são para resolver e anular. A felicidade é para ser gozada", é o lema do homem que partilhou com o JN a sua energia numa conversa em que falou da doença, do filho e dos projectos.

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 28 de Março de 2004)

Está farto de falar da sua vida, de carregar o título do mais antigo português com HIV?
É o preço a pagar quando se deixa que as pessoas entrem na nossa intimidade. Quando era manager de artistas, tentava poupá-los a essa exposição. No meu caso, respondo sempre às perguntas, mas de acordo com o meu humor do momento.

Mas cansa-se de responder às mesmas perguntas?
Haverá mais perguntas para fazer do que aquelas que me fazem? Se calhar há. Só que não vendem jornais. Na televisão é igual.Há uns anos, estava internado e ninguém acreditava que me salvasse.Havia uma "Corrida à volta de Portugal", promovida pela Comissão da Luta Nacional Contra a Sida e queria ver a chegada. Os médicos deixaram-me assistir numa ambulância da Cruz Vermelha. Uma repórter de uma estação pública perguntou-me o que estava ali a fazer.Demorou, no máximo, dois minutos. À noite, o telejornal abriu com a "sensacional reportagem de um doente em fase terminal".Já lá vão mais de cinco anos. Foi lamentável.

Faz 58 anos em Maio. A sua meta de viver até aos 50 já foi largamente superada. Qual é a próxima?
O Euro 2004. Não pelo acontecimento desportivo em si, que não me interessa, mas pela oportunidade que Portugal tem de se mostrar ao Mundo, e ficar com boa imagem do Mundo também. Aliás, foi isso que desejei em metas anteriores, nomeadamente, na Lisboa 94, e na Expo 98.

O melhor é começar já a pensar na etapa seguinte...
Não consigo. Pela primeira vez na vida não consigo programar com antecedência, o que é estranho. Não estou a gostar da brincadeira.

Nunca ninguém lhe conheceu um lamento, uma frase mais dramática. Lida com a morte com naturalidade?
Claro. Há alguma coisa mais natural que a morte? Morre-se e pronto. Acabou. Esta maneira de encarar a vida trouxe -me mais felicidade do que problemas. Os problemas são para resolver e anular a seguir. A felicidade é para ser gozada.

Quando recebeu o diagnóstico da doença não sentiu que a sua vida estava hipotecada?
Nos primeiros dias, sim. Depois, vi passar o primeiro fim-de-semana, um mês, um ano, e não acontecia nada. Conclui que não há prazos.É uma estupidez pensar que estar doente há alguns anos significa que só restam alguns dias. Esse diagnóstico, em 1988, foi só a confirmação de uma comunicação que já tinha tido em 1984, no Intituto Pasteur, em Paris. Só que nessa altura os testes não eram fiáveis. Conheci muita gente que se suicidou porque entrou em pânico com resultados positivos que se confirmou depois estarem errados.

Qual é o lado mais cruel do HIV?
Tomar comprimidos que nunca mais acabam. É uma coisa que me custa tanto, tanto a fazer, se as pessoas soubessem... Também deixei de sair à noite, de beber 13 bicas, de fumar quatro maços de tabaco por dia. Mas isso foi uma decisão que tomei de livre vontade.Se não a tivesse tomado, já cá não estava.

Abdicou também da sua vida sexual. Foi difícil?
Não. Fi-lo de um dia para o outro. Bastou pensar que um ligeiro descuido, cuja culpa me podia ser imputada, podia provocar infecções noutras pessoas. Em 1984 os preservativos rompiam com facilidade.Não queria que acontecesse aos outros o que me aconteceu a mim.

Fala-se agora muito de pedofilia. A mediatização do tema teve impacto nos doentes com Sida?
Teve uma consequência grave: a luta contra a não discriminação dos doentes com sida caiu por terra. As pessoas voltaram a pensar como há 20 anos. Foi um duro revés nas campanhas de luta contra a sida que, pelos vistos, não eram suficientemente consistentes.

Tem opinião sobre a Casa Pia?
Tem-se enchido o país com imagens repugnantes. Diz-se que os mais velhos vão buscar os meninos. Se calhar não é totalmente verdade. Alguns meninos sentem muito prazer. A história dos coitadinhos não me convence.

Não acredita no amor. Porquê?
Porque atrás dele vem um sentimento perigosíssimo, que é a paixão.A paixão descontrola as pessoas. Para mim, a cabeça está sempre à frente do resto. Éa única coisa que não quero perder.
É por isso que durante a conversa pública com o seu filho, Luís Osório, foi incapaz de lhe dizer que o ama?Essa entrevista foi um ajuste de contas. "Gosto de ti" foi uma coisa que lhe disse a vida inteira. Disse-o na minha linguagem, porventura demasiado cerebral. Acredito que se pode estar próximo mesmo estando longe.

Não sentiu vontade de lhe pedir desculpa pela ausência?
Não. Talvez gostasse de ter feito as coisas de forma diferente, mas com a minha maneira de ser, talvez voltasse a fazer tudo igual.

O que é que hoje lhe dá prazer?
Sair para jantar fora e ir aos fados com os amigos. E tentar concluir o arquivo de todos os discos de fado gravados em Portugal até hoje, que é uma coisa um bocado ambiciosa, e não sei se consigo.

************************************************************************************"Sem "Sem querer, o meu pai deixou-me refém de afecto"

Parece uma pessoa triste, mas ele garante que não é. Talvez carente."Preciso muito de colo", confessou. Luís Osório, jornalista/escritor/encenador, que acaba de se estrear como encenador com o texto de Daniel Sampaio "Vagabundos de Nós", e prepara a publicação da biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, falou com o JN a propósito da entrevista, publicada em livro, que fez ao pai com quem nunca viveu. "Foi útil", disse, áspero. "Percebi que por muito apaziguamento que haja, ele nunca poderá ser meu pai, porque não foi na altura em que essas coisas se decidem na nossa cabeça."

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 28 de Março de 2004)

Publicou uma conversa com o seu pai onde fica a impressão de que tenta roubar-lhe uma declaração de amor.Era esse o objectivo de "Quanto Tempo - Uma criança no olhar?"
É uma leitura possível. Não sei se antes de falar com o meu pai havia o desejo inconsciente de que ele me agarrasse a mão e dissesse "amo-te". Conscientemente, não. Essa conversa, que nunca tinhamos tido, não me surpreendeu. Seria surpreendente, artificioso e falso se ele o tivesse feito. Ele é uma pessoa com muitas ambiguidades. Por isso é que o considero. Não há pessoas interessantes sem serem contraditórias. A minha ambiguidade consiste no facto das pessoas acharem que sou pragmático e frio, quando tenho imensa necessidade de ser amado. É uma coisa que o meu pai me deixou sem querer: ser refém de afectos. Preciso muito de colo.

Admira o seu pai por ele não se arrepender de nada?
Claro. Se calhar "admirar" não é bem o que penso. Não é admirável.Tenho a convicção absoluta de que o meu pai gosta muito de mim.A forma de gostar é que não é ideal, sobretudo para um filho.Mas ele foi coerente, assumiu tudo com verdade. E deve admirar-se a coerência.

É mais condescendente com ele devido à doença?
Não é um pormenor ele ter sida há 20 anos, e ter superado vários internamentos e infecções que, à partida, lhe seriam fatais.Mas tem uma força espantosa, quase paradoxal. Não me aproximei por causa da doença. Ele é que se reaproximou por causa dela.Tornou-se outro. Era uma pessoa muito pouco presente, a viver a 300 à hora.

O que sentiu quando soube que o seu pai era seropositivo?
Que ele ia morrer. Gostava de dizer que senti imensa pena e que chorei imenso, mas não. No dia em que me disseram que ele era seropositivo, fui para casa da minha mãe e adormeci como nos outros dias.

Lembra-se de ser pequeno e pensar "Porque é que não estás aqui, pai?"
Não. Até certa altura da vida achei que a relação entre pai e filho era a que eu tinha. Achava que o meu pai era um herói e, por isso, é que não passava muito tempo comigo. Era um herói no partido comunista, na música. Depois percebi que não era herói em lado nenhum. Percebi, com algum exagero, que era um falhado.Foi um tumulto. Gostaria que tivesse sido herói até ao fim. Era a única maneira de justificar a sua ausência. Hoje relativizo as coisas. Não consigo julgar pessoas. Aquela era vida dele, e as prioridades dele não passavam por mim. Acho moralmente errado.Não é defensável, mas não o julgo, nem deixo de gostar dele.

Que recordações tem de si nessa altura?
São memórias muito afectivas. Sempre vivi com mulheres, por isso, talvez tenha um lado feminino acentuado. Tenho memória de entrar no quarto do meu pai e ver uma fotografia minha muito grande.Até certa altura achava que era o que eu precisava para, dentro de mim, justificar algumas coisas.

Gostava que essa fotografia tivesse maior significado do que aquele que o seu pai lhe deu?
Claro. Talvez seja esse o motivo porque não dou mais entrevistas com ele. Depois das coisas que foram ditas, não há espaço para dúvidas sobre a relação com o meu pai. Foi um livro bastante útil. O objectivo foi cumprido, mas agora devemos seguir caminhos diferentes. Percebi que não gostava que esta pessoa assumisse a figura de pai. Por muito apaziguamento que haja, ele nunca poderá ser meu pai, porque não foi na altura em que essas coisas se decidem na nossa cabeça.

Mas também podia ter lutado mais pela relação com o seu pai, em vez de ficar só à espera.
É a outra face da moeda. Não fiz esforço nenhum. A partir do momento em que ele se aproximou, não fiz nada para lhe dar a mão com mais força. E não o fiz porque não tenho sentido moral para poder perdoar. Não tenho necessidade de perdoar, mas tenho necessidade de entender muitas coisas. É o meu lado egoísta.Hoje o meu pai é bastante mais complacente e disponível para mim do que eu sou para ele. Há um momento, no livro, em que choro quando me dizem que ele está a morrer. Tive a percepção que nunca tive um pai e gostaria de ter tido. Mas ele está sempre a fintar-me.Há imenso tempo que está para morrer e não morre. Ainda morro eu primeiro.

O seu pai é mimado por toda a gente. Tem ciúmes disso?
Não. Sou muito ciumento, mas do meu pai não tenho ciúmes. Não há verdadeira paixão sem o medo da perda. Revolta pensar que um estranho pode amar a pessoa que amamos de forma mais bonita que nós, ou mais interessante e inteligente. Mas é assim: há pessoas mais bonitas e completas do que nós.

Como é que lida com a morte?
Na morte do meu pai não penso. A morte das pessoas que me são próximas custa-me muito. A minha avó materna, que foi a pessoa mais importante no meu processo de crescimento, morreu há três anos, e foi extraordinariamente custoso. Mudou tudo do que eu era. Quando senti a ausência dela, entendi que a felicidade não é alegre - a única possibilidade de a conquistar é perceber isso.Não é alegre, porque a ausência mata-nos.

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O LIVRO: "Quanto tempo, Uma criança no olhar"

«A esperança secreta»

Um filho tem sempre a esperança, mais ou menos secreta, mais ou menos evidente, de que os progenitores se sintam infinitamente mais felizes só por eles, procedência de um tronco comum, existirem. Mesmo que nunca estejam presentes. Mesmo que tudo na vida deles pareça indicar o contrário. "Nunca pensaste que o teu filho poderia sentir a falta de um pai?", pergunta Luís ao pai que nunca teve. "Se calhar nunca o pensei", responde, indeciso, José Manuel. "Não, nunca o pensei", dispara depois, abortando qualquer hipótese de fé. "Apesar do dia em que nasceste ter sido dos mais inesquecíveis da minha vida". Luís é o ainda imberbe Luís Osório, jornalista várias vezes premiado, com obra notável na imprensa, na rádio e na televisão. José Manuel é dos maiores produtores de espectáculos de Portugal, embora seja mais conhecido por ser o seropositivo que mais batalhas tem ganho à Sida. Aos 55 anos, o militante do Partido Comunista já soma 24 internamentos e mais de 250 mil comprimidos ingeridos.
O livro "Quanto tempo, uma criança no olhar" não passa de uma entrevista, das mais íntimas, das mais honestas, comovedoras e nuas que será possível alguma vez ler. De um ajuste de contas entre um filho que cresceu educado pela avó, e um pai que o via todos os dias, desde que nasceu, mas apenas através de uma fotografia que mandou ampliar na parede do quarto. De uma ajuda que o filho decidiu dar ao pai, transformando a entrevista num produto de mercado, revertendo o dinheiro para os dispendiosos tratamentos do pai.
Luís Osório parece um menino pequenino munido de toda a artilharia de guerra para, percorrendo a vida sexual, a doença, os amigos, as noitadas, os espectáculos, a política, sacar ao pai uma frase, uma só, que o faça acreditar que sempre lhe pertenceu. "Se te pedisse uma recordação minha, o que é que te vinha à cabeça? Há alguma coisa que gostarias de me deixar? Se pudéssemos ir a Paris, onde me levavas? Oferecias-me algum livro?..."
E como quem, já cansado de não obter a resposta que aquece o coração, atira as armas ao ar e decide vingar-se recordando ao inimigo que ele acabará por sucumbir. "Achas que vou chorar quando morreres?" O pai diz que não sabe, embora saiba. Luís Osório vai chorar. Vai chorar como se tivesse vivido todos os dias ao lado do homem que admira, apesar de nunca ter jogado futebol com ele, de nunca terem passeado de mãos dadas, de nunca o ter ajudado a fazer os deveres. Tal como, para José Manuel, a morte do filho seria "um rude golpe, talvez o último dos golpes", confessa.
À chegar à última página, Luís Osório ganha novo fôlego. "Não me fizeste uma única pergunta nesta nossa conversa". O pai diz que quer fazer uma, saber se o filho mudou de opinião sobre ele. Luís Osório não mudou. Confirmou que irá chorar quando ele morrer, que admira que José Manuel não tenha assumido a postura de pai arrependido, mas, confessa: "alguma coisa nos impedirá sempre de ir mais além". Porque não há atalhos para o passado que permitam virar a vida do avesso.

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